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sábado, 18 de maio de 2013

CONTOS DE UMA BAILARINA ALIENADA



Os pais, as irmãs e as diferenças. 

Os pais, as irmãs e as diferenças.

Amanda desviou a atenção do que escrevia ao ouvia a porta do quarto vizinho bater. Era o quarto de Carla, sua irmã mais velha. Antes mesmo que pudesse voltar a atenção para seus afazeres, cochichos lhes chamaram a atenção:
Carla não estava sozinha! Em um movimento rápido de cabeça olhou o relógio na escrivaninha, passavam das vinte e três! Por um momento Amanda achou que a irmã estivesse com uma de suas raras amigas, mas o sussurrar de uma voz masculina a fez levantar da cadeira quase de um salto e colar o ouvido na parede que ligava os cômodos, no entanto, apenas sussurros, ainda sim Amanda pode identificar a voz da irmã de um homem e não era seu pai!

Afastou-se pensativa voltando a sentar, porém, não a escrever, ao invés disso, pôs-se a analisar a situação da irmã:

Carla era uma jovem que os pais descreviam como “problemática”, era rebelde em quase todos os aspectos, grosseira e hostil. Fora adotada por seus pais cinco anos antes do nascimento de Amanda. A mãe de ambas, Nádia, logo após o terceiro ano de casamento, decidira pela adoção juntamente com o marido. Tudo mudou na casa depois com a chegada da recém-nascida e adotada, Carla. Podia-se dizer que foi o certo a ser feito, tudo era perfeito e a menina um encanto em beleza e doçura.

A adoção de Carla nunca fora mistério para a mesma, assim tinha ficado estabelecido pelo casal, havia decido que era o mais honesto a se fazer. Poucos anos após a adoção Nádia engravidou e nascera Amanda, à principio tudo parecia correu bem, mas conforme Amanda crescia Carla mudava radicalmente.

Era de abismar aos pais o comportamento de Carla, antes uma criança, a cada dia, mas se fechava, com um tempo foi se tornando uma criança intratável, havia ficado muito claro na mente dos pais o ciúme que sentia pela irmã, era a única conclusão que encontraram.

Acabaram por desviar a atenção para Amanda, era inevitável, sempre doce e prestativa.

A antipatia de Carla afastara o pai dela, Nádia procurava sempre remediar e tratar com certa igualdade. Quanto a Rubens e a filha, sempre havia atritos.

Amanda parecia entender a irmã e se mantinha neutra em relação a desarmonia dos pais, tomar partido poderia ser bem complicado.

Nádia arranjava forma de amenizar os erros de Carla, o mesmo não acontecia com Rubens, que parecia vê-los maiores, Amanda começou a deduzir que talvez fosse a paciência deste que reduzia com o tempo. Amanda, desde que se entendia por gente sabia que a irmã não queria sua amizade e quanto nada parecia poder ser feito em relação ao assunto as coisas caminharam desajustadas. O que eles não podiam imaginar, posteriormente, a dimensão desse desajuste.

As filhas cresceram separadas, no entanto, frequentavam o mesmo colégio e a mesma escola de ballet clássico. Carla estava atrasada alguns anos nos estudos.

O ballet clássico era um interesse que ambas dividiam de forma individual.

Carla, embora fechada e hostil, ainda sim era uma aluna aplicada, no inicio, sua aptidão pelo ballet não fora encontrada pelos professores. No entanto, seu jeito de ver e peitar a vida tornou isso seu desafio, as consecutivas críticas que ouvia no ballet fez com que a melhor forma de lidar com elas era sendo boa e assim o fez. Amanda, simplesmente, não via as coisas como a irmã.

As portas da universidade, Carla não vinha se mostrando uma criatura hostil de sempre.

O fato de saber que a irmã tinha um homem em seu quarto era desagradável, mas Amanda não estava desposta a um desgaste entre ambas e os pais. Voltou sua atenção ao que escrevia os sussurros do quarto ao lado não mais tiraram Amanda de suas escritas. Era um prazer imenso que sentia em escrever, fazia isso diariamente, de uma forma até excessiva na opinião de sua irmã. A noite foi-se indo...

No café da manhã todos pareciam animados, afinal de contas uma apresentação de ballet no teatro da cidade, e ambas estavam escaladas. Amanda havia conseguido um papel mais destacado do que o do ano anterior, ao contrário de Carla, que em nada mudara, continuava sustentando pelo terceiro ano o papel de bailarina principal nos apresentações que eram exibidas pela academia. Amanda não sabia dizer o porque disso, pois, em sua opinião formada, Carla podia ser linda, porém comum e sem nenhuma simpatia. Como se seus pensamentos puxassem a mesma, Carla adentrou tomando seu lugar a mesa com um murmurado “bom dia”:

- Poderia ser mais clara em suas saudações, Carla?

Rubens advertiu a filha mesmo sob o olhar de reprovação da esposa e do silêncio habitual de Amanda. Carla, por sua vez, olhou em volta e para surpresa de Amanda e alívio da mãe, respondeu:

- Bom dia a todos!

A forma sincera e amigável que usou chegou a estampar um sorriso de Nádia que logo e fez com que Amanda parasse com a colher de cereal a caminho da boca, ainda sim, Rubens pareceu insatisfeito, sem sequer olhar a esposa lançou a Carla:

- Vim do posto hoje cedo... Soube que você esteve lá pelo bar... A que hora foi para seu quarto, Carla?

Esta abaixou por um momento, a cabeça, em seguida firmou o rosto do pai enquanto dizia:

- Fui para o quarto cedo... Mas ainda não dormi...

O pai, aturdido, pensou que a filha pudesse estar tendo problemas para adormecer com a nova medicação, meio a gaguejar:

- Mas o que...? Como...?

- Eu não estava sozinha.

Com isso levantou-se de forma fria, ignorando por completo o reboliço que sua franca resposta causou na mesa. Seu pai havia levantado de forma violenta e foi segurado pela esposa, a qual murmurava súplicas para que o mesmo se acalmasse.

Carla mal alcançou a cruzara a porta da rua e sentiu a mão pequena e gelada da irmã em seu ombro, acrescentando com certa doçura:

- Carla, espere...

Retirando a mão da irmã com violência de seu ombro, retrucou em tom descontrolado quase a berrar:

- O que você quer?!

Amanda não se moveu, porém, limitou-se a virar o rosto em defesa aos “Quase berros”, recobrou o tom:

- O que está havendo, Carla?

Carla não pode deixar de se mostrar confusa com aquela pergunta, a outra, ao perceber o semblante da irmã emendou:

- Quem estava com você no quarto ontem?

Carla arregalou os olhos, seu espanto não se devia ao fato de Amanda saber de sua vida, era a audácia da pergunta que a irritou, murmurando o um “pirralha” quando ao dar-lhe as costas ouviu-a firme ainda firme no que perguntava:

- Era Gerard?

Naquele momento Amanda conseguiu a informação que queria, Carla havia se virado, as mãos na cintura e um semblante furioso e irônico:

- Vai! Corra até seu pai e diga o que sabe!

- ele é nosso...

-Seria! – interrompeu a outra com um berro e apontou o indicador para a porta do qual haviam saído – Vai contar!

Em seguida virou-se furiosa decidida a ir, porém outro comentário de Amanda a fizera petrificar:

- devo presumir que está a três anos juntos...

- como...?

- Desde então não perdeu nenhuma audição, é com a ajuda de Gerard que tem contado?

Carla pensou por um momento e analisando a irmã, finalmente lançou para em seguida deixar-lhe a ausência como companhia:

- e se for?

Amanda por um momento analisou a figura decida da irmã, depois entrou e cuidou de afazeres pessoais, sabia que, ela não mudaria a forma da irmã ver as coisas, isso são coisas da vida... Ao contrário de Carla, Amanda tinha vários amigos e fatos chocantes haviam ocorrido semanas antes com duas de suas melhores amigas. Débora, uma menina apagada de sua turma, sofria uma neurose em ser a bailarina perfeita, sofria com isso. Ao procurarem do seu paradeiro nas faltas as aulas, souberam de seu suicídio. Aline, uma moça alegre, havia acabado de contrariar os pais, ao menos estava feliz; saíra de casa para viver com um bailarino da escola de dança. Dias depois morrera em um feio acidente de moto, Amanda consolara o amigo, e os pais começavam a achar que a filha andava sobrecarregada. O acidente era uma fatalidade, mas o caso de Débora fora motivo para que Rubens tivesse que dispensar uma atenção à filha, fora uma perda grande, ele dizia a todos se referindo à amizade de ambas. 

Amanda retirou seu velho caderno de seu cantinho e põe-se a escrever, por um momento sua atenção foi desviada para Carla:

“Agora ela estava passando dos limites, entregar-se a Gerard?!”

Amanda não pode conter as lágrimas: “Como eles podiam?!”.



Embora o dia tivesse transcorrido bem, o mesmo não se dera ao anoitecer. Quando todos se reuniram a mesa de jantar como de costume o que já era temido e esperado por Nádia aconteceu, Rubens, enquanto servia-se de uma generosa quantidade de legumes indagou a filha mais velha:

- Gerard me disse que você ganhou novamente a audição do ano...

Ignorando onde o pai queria chegar, perguntou?

- Quando se falaram?

- Ele é seu professor, não é?!

Carla ergueu a cabeça e encarou o pai, viu a expressão que ia muito além daquilo, era como se praticamente ouvisse o pai dizer: “Ele é seu professor e estão dormindo juntos?! Está fazendo isso por um papel?! Não lhe ensinei isso...”.

Tentando controlar o bolor na garganta olhou para Amanda que por sua vez abriu ainda mais os grandes olhos, como que temesse que a ira da irmã sobrasse a ela. No entanto, Carla, voltou-se para o pai respondendo entre dentes:

-É sim senhor.

Sem conter-se com a resposta teatralmente submissa da filha, Rubens cerrou os punhos e desferiu um soco na mesa, o impacto e o susto fizeram com que a mulher e as filhas levantassem aos saltos da mesa.

- Carla, até seu professor?!

Carla, que mediante ao susto havia se afastado da mesa e escorado em uma cristaleira as suas costas, deu um passo a frente esquecendo o susto e de maneira desafiadora:

- Como assim até meu professor, papai?

Vendo que este em nada se manifestara se continuou com um ar irônico:

- O que está querendo insinuar, papai?!

Enquanto Carla esperava uma resposta do pai bufante, agora de olhar oscilante, sua mãe rompera em pratos, na opinião de Carla era o que ela fazia, quando queria roubar cenas como aquela ou qualquer outra, os desmaios também eram comuns. No entanto, apenas Amanda saiu para acudi-la.

Filha e pai continuaram encarando-se por um tempo que pareceu ser mais longo que o normal, ao notarem que os instintos de defesas de ambos foram baixados, Carla, tentando manter aquela calma arriscou:

- Amanda lhe contou...?

- Por que a culpa por tudo, filha?

- Por que em tudo a defende, pai?

Rubens passou os dedos pelos cabelos em um gesto nervoso, amava as filhas, no entanto, o comportamento de Carla lhe permitia lhe mostrar esse amor. Olhou a figura franzina e séria que lhe pedia uma resposta com um silêncio gélido. Como dizer a uma filha que ele preferia o comportamento de sua irmã? Não era o amor que lhes tinha que lhe era diferente, apenas não podia aprovar as condutas de Carla, sua hostilidade... “como gostaria de poder dizer que o amor entre as duas é o mesmo...”.

- Isto é mentira!

A voz fria e calma de Carla o arrancou do que ele agora não dizer se eram pensamentos ou murmúrios...

- Carla, sua atitudes...

- Desde quando o senhor se importou com elas?

A filha permanecia na mesma posição, com o mesmo olhar e tom frio. Rubens piscou um tanto confuso, entre a pergunta e a frieza de Carla. Desarmando-se totalmente jogou o corpo na cadeira e após uma pausa e um longo suspiro sua voz saiu cansada:

- Como pode dizer isso, depois de tudo que sua mãe e eu fazemos?

Olhando-a com mais firmeza, indagou:

- Onde erramos tanto, filha?

Desta vez foi Carla a pose e gargalhou de forma irônica, Rubens não se contentou:

- Falei algo engraçado?!

Carla como se não mais pudesse segurar as sensações de fúria que aquela conversa lhe causava, aquelas perguntas... Olhou para as mãos trêmulas e virou de costas a fim de conter as lágrimas de ódio, tornando a virar-se bradou:

- Disse papai... Aliás, o senhor é uma piada!

- Como se atreve?

- A grande piada sou eu! Eu estou em preto e branco para vocês! E quando alguém aparece com a ideia de que posso ser algo, além disso, ele é meu professor! Então, esse será o problema... Que pode ver cores em mim e o senhor preocupado com corpo docente e discente! Uma ova que seja meu professor, somos maiores! O que há de errado?

- o que vejo de errado, essas audições...

Neste momento Carla virou para o pai como um furacão e vociferou:

- o senhor não seria capaz de discernir o certo do errado, mesmo que ambos estivessem a sua frente, preto no branco e etiquetados!

Sem esperar por resposta rompeu escada acima e parou de súbito no corredor ao vera irmã, parada de frente a porte de seu quarto: “ Ainda essa!” – Pensou. 

A passos largos chegou frente a da irmão e despejou isenta de paciência:

- O que quer?

Amanda parecia muito calma e equilibrida:

- Gostaria que me ouvisse.

- E por que eu faria isso?

- É importante.

Com o mesmo tom seco fez um gesto de cabeça para que Amanda saísse de sua frente e esta pudesse abrir a porta, entrou e em seguida ordenou:

- Feche a porta!

Sentou em uma pequena poltrona de seu quarto quanto observava a irmã obedecer . Amanda conhecia as crises de Carla...

- Então...?!

Amanda manteve um ar sério e decido ao se virar, porém procurou escolher as palavras:

-É verdade que parou de tomar seus remédios...?

Carla não se mostrou surpresa com a informação da irmã, o que não entendia era em que momento ela lhe deu esta liberdade. Analisou a figura patética e de olhos grandes parada a sua frente antes desta prosseguir:

- Entenda... As coisas não podem continuar do jeito que estão...

Amanda fez uma pausa a certificar-se que a irmã a ouvia, Carla por sua vez manteve-se quieta a cada gesto da outra, a mesma deu a volta ao redor da cama e sentando na beirada da mesma, pois bem de frente a irmã e após um breve suspiro prosseguiu:

- Não falei com papai sobre Gerard...

Ao notar que Carla fazia um ar de descrença e pouco caso, mudou o rumo:

- O.K. Carla! Isto não vem ao caso, mas o seu lugar na audição sim!

Carla se levantou, agora, de forma vagarosa:

- O que está insinuando, Amanda? Que o papel é meu porque durmo com Gerard, é isso? – por fim berrou.

- Não!- esta retrucou levantando-se em seguida amenizando o tom – pelo fato de vocês namorarem... Ele pode estar sentindo-se pressionado... – antes que a irmã vociferasse completou-... Por ele mesmo! Talvez não quisesse lhe contraria escolhendo outra bailarina...

- Gerard e sabemos separar nossa vida pessoal de vocês...

- Eu não teria tanta certeza! – Carla quase que de imediato perdeu a firmeza, em meios a piscar de olhos, e um estreitar deles indagou quase que de um sussurro:

- O que está dizendo...?

- Essa foi a causa da morte de Débora.

Amanda analisou Carla, no entanto esta permaneceu parada, na espera do que viria...

- Débora vinha lutando por esse papel anos, você sabe que ela era alienada por isso, e o papel seria dela... 

Amanda não olhou a irmã, mas pode perceber que embora não fizesse nenhum movimento, estava atenta, seu silêncio mostrava interesse no assunto, voltando a sentar na beirada da cama olhou para baixo e narrou:

- É verdade, todos sabiam...

- Eu não! 

- Você não convive com os outros, Carla, como pode saber, Débora deu um duro incrível, sabe que ela tinha problemas, transformou a dança em obsessão... Matou-se no dia do resultado da audição, não te parece estranho?

Ao notar a passividade da irmã acrescentou:

- A Débora seria sua substituta, não eu!

- Gerard não...

- como eu disse você não pode controlar tudo, Carla!

Sem saber ao certo em que rumo Amanda estava dando aquela conversa, pôs-se a ouvir:

- Carla, há anos as coisas cercam somente a você e sua vontades e crises! Débora vinha lutando só por isso como única razão de viver...

- Bailarina nenhuma pensar assim...

- Mas ela pensava! Gerard deu o papel a você porque teve medo de lhe dizer não! Não tinha escolha... – Com um tom mais suave acrescentou -... Suas crises precisam dos remédios...

- Saia daqui – Berrou Carla enquanto apontava a porta do quarto, viu a Amanda ir cerrando os lábios e saindo, mas antes que esta cruzasse a porta, ouviu a voz de Carla:

- Nunca serei como cinzas por muito tempo, minha cara, sou como a Fênix!

*****

Na noite a apresentação tudo corria de forma alegre e contagiante. Amanda recebera os ditos paparicos dos pais, não era a primeira, mas todos sabiam como ela se esforçou, os pais sabiam que a filha havia dito que não queria o papel, pois era um desrespeito em memória de Débora, porém, comovidos, os pais e Gerard a demoveram dessa decisão. Havia tido um destaque melhor do que o do ano passado seria também substituta, além de ficara com o papel da falecida amiga. Reunira-se com o resto do corpo de baile no camarim coletivo, afinal de contas, agora era a vez de Carla brilhar, mediante a conversa desagradável que tiveram na noite anterior, Amanda optou por ficar ali com as amigas do que ver a irmã dançar, não valeria a pena...

Uma ligeira batida na porta tomou a atenção de todas, em seguida Gerard entra e indo em direção a Amanda a pega pelo braço sem dizer coisa alguma as presentes, em um canto falou quase a sussurrar:

- Onde está Carla?!

- No camarim...?!

Gerard ao notar os olhos arregalados de Amanda, logo concluiu que ela sabia menos do que ele:

- Quando a viu?

- hoje a tarde, pouco antes de sair...

- Precisa assumir o lugar dele, você é a substituta...

- Se Débora estivesse...

Com impaciência pegou Amanda pelos braços:

- Está na hora de você superar a morte de sua amiga, além do mais, se ela estivesse aqui... Não seria uma opção...

Depois de um ligeiro olhar a Amanda, enfim ordenou:

- Você é a substituta, sabe o que fazer! Vou atrás de Carla!

Amanda não teve muito tempo para pensar e sequer argumentar, mais cedo do que imaginava, tudo acabou...

No camarim particular, atualmente, de Carla, olhava-se no espelho, ouviu uma batida na porta e sem que tivesse tempo de autorizar a entrada a porta se abriu de rompante e uma bailarina entrou aos prantos:

- Carla está no hospital!

*****

O alvoroço era grande na recepção do hospital, Nádia, sua mãe, surtava entre soluções e pequenos desmaios, seu pai a acudia como uma forma de distrair o próprio nervosismo, de alguma forma Amanda acha melhor não interferir, evitando algumas pessoas sem maiores satisfações correu em direção a Gerard ao avistá-lo sentado em um banco, sozinho com a cabeça entre as mãos, ele havia dito que a procuraria, ele deveria saber de algo. Amanda tentou diminuir a velocidade e aparentar certo controle a medida que ia se aproximando do sofá, sentou-se com leveza e lhe tocou o ombro da mesma forma, este, em resposta ao toque ergueu a cabeça e exibindo um semblante banhados por grossas lágrimas a abraçou, assim permaneceu por alguns minutos chorando no ombro de Amanda. Afastando o amigo formulou uma questão com os olhos que logo Gerard entendeu e balançou a cabeça em uma negativa frenética e acrescentando com voz embargada:

- Está viva... Mas temo...

Olhou de relance para Amanda e sentindo-se um egoísta, afinal de contas seu rosto mostrava que de nada sabia e eram irmãs. Respirando fundo para recobrar certo tom de voz e tentando não visualizar o que narrava começou:

- Toquei inúmeras vezes à companhia na porta da frente, nada, por um momento achei que ela havia ido... Um desencontro... Mas vi o carro dela, fui pelos fundos, entrei e... – engolindo um soluço acrescentou -... Entrei correndo no impulso de correr escadas acima, mas ela estava ao pé da escada... 

Amanda levou as mãos à boca sufocando um gritinho de horror, Gerard fixou os olhos na máquina de café e com uma calma além do comum, foi até a máquina e serviu-se, olhou o líquido fumegante que saia do copo, sem leva-lo aos lábios, narrou a situação, Amanda percebeu que ele relutava em tentar não lembrar o que viu repassar em sua mente, de repente, como em um palco, fechou os olhos e com um respiro fundo conseguiu narrar com voz pausada:

-... Ela estava caída e desacordada aos pés da escada, entrei em desespero, havia sangue saindo de sua cabeça e ao chegarmos aqui... Soubemos que quebrou a pernas, sabe-se lá em quantos lugares! – Lamentou em um desabafo irônico antes de prosseguir sério – os médicos disseram que a pancada na cabeça é relativa... Ou seja, não saberemos o que encontraremos quando ela acordar...

*****

As horas passavam e alguns amigos da família, vizinhos e alunos já haviam ido, ao fim, restava à família e Gerard. Nenhum destes concordou em ir embora, ao menos, esperavam não receber uma notícia pior. repentinamente um médico apareceram na recepção, olhou a todos com certa calma e indagou:

- Familiares de Carla?

Ao notar oito pares de olhos arregalados se entreolharem, logo os identificou, com um gesto, deixou claro que não era uma notícia de óbito que viera dar, com gentileza pediu que estes o seguissem, e parando a frente de um quarto, falou:

- é contra as normas visitas na UTI por aqui, mas preciso da colaboração de vocês, Carla está consciente - antes que estes pudessem abrir sorrisos, advertiu: - Preciso que entrem, mais preciso também que permaneçam em silêncio, não devemos deixa-la perturbada.

Ao entrarem no quarto viram um misto de imagens confusas, Carla com a perna erguida, saída de uma cirurgia, falava freneticamente com uma enfermeira e por não ficar quieta, levava à mão a cabeça com curativo. Sobre os protestos da enfermeira ao seu lado deu-se conta da presença do médico:

- Dr. Richard! – 

Sorriu, mas, ao se dar conta dos quatro acompanhantes que este trazia, retirou o sorriso do rosto e com um ar sério se voltou para o médico:

- Quem são eles, doutor?

Os quatro olharam atônitos para o médico que antes correspondia ao sorriso da bela e confusa paciente. Este olhou para os familiares como se os lembrasse do silêncio que haviam combinado, com um ar simpático se voltou para a paciente:

- Estas pessoas queriam vê-la, Carla, falamos sobre isso, você esqueceu-se de algumas coisas, eles sabem, é natural, ficaram felizes em saber que está animada com a fisioterapia, voltará a andar!

Carla, antes confusa, sorriu para a família como quem sorrir sem jeito para estranhos ao ser elogiado, logo perceberam que o médico fizera o comentário para mostrar que Carla não tinha ideia de quem era, caso contrário, estaria inconsolável pela perna. 

Recomendando certos cuidados a enfermeira e despedindo-se de ambas, logo saiu levando a família para sua sala particular e explicou:

- Sou o psiquiatra de plantão, fui chamado pelo neurologista. Uma enfermeira viu quando Carla acordou, se queixava de dores, choramingou sozinha e de repente voltou-se para a enfermeira e perguntou pela perna, se voltaria a andar, a enfermeira, chamou o neurologista não somente por ver uma paciente naquele estado em pleno ânimo dentro do que a situação permitia e o que ela achou mais estranho: Sendo bailarina, ela não teve um ataque ao ver o estado da perna erguida logo a sua frente.

Fui chamado, sei que estão aflitos há horas, e não os chamei antes, pois queria ter uma noção da situação, Carla se mostra simpática e falante, mas não tem ideia de quem é sequer de era bailarina.

-Era?! – Assustou-se Gerard.

-Bem, o estado da perna, segundo os ortopedistas e cirurgiões... É isenção de ballet.

Todos foram atônitos para casa, entre um soluço e outro, Amanda podia sentir a dor da mãe, o pai dirigia absorto, Gerard olhava fixamente pela janela, tocou seu braço de forma gentil, este se virou e com o rosto molhado pelas lágrimas, buscou consolo no abraço meigo.

*****

Já passavam das duas da manhã quando na casa, abalados e discutindo mil e uma formas de fazer Carla voltar a si, por fim se recolheram. Mediante as circunstâncias, Nádia e Rubens permitiram que Gerard pernoitasse no quarto de Carla.

Antes de entrar em seu quarto, Amanda deu uma olhada para a porta do quarto da irmã, com um suspiro imaginou a dor de seu amigo e entrou em seu próprio quarto, tendo o cuidado de trancar a porta atrás de si... Não queria confusões para seu si àquela altura!

Abriu o baú que ficava aos pés de sua pequena cama de madeira e com ele sentou-se em sua mesma confortável cama, fora um dia cheio, seria bom ver seus pertences, seu mundo, começou por pegar uma caneta e em um caderno expos o que seus costumeiros sentimentos:

“Hoje foi um dia de muitas surpresas, tenho mais para escrever do que imagina! Meu diário! A vida tem sido... Perfeita! 

Confesso que fiquei assustada quando ouvi Carla mencionar as palavras: cinzas e fênix, logo entendi que ela havia lhe encontrado, meu precioso! Pensei em queimar-te ao chegar, pois sem provas que tipo de criatura acreditaria ou levaria Carla a sério?! Gerard?!... 

A grande surpresa, não preciso me desfazer de tudo, ela entragaria tudo! 

Amanda parou de escrever relembrando a noite afinco de treino da irmã no quarto ao lado - Rira também no dia, pois sabia que era treino sem lucro.

“Depois da conversa sobre Débora ela caiu em neura e não dormiu, passou o dia ensaiando”...

“durante a tarde estava horrível, aumentei a dosagem do remédio que a ela toma para não enlouquecer!” Meus pais gastam fortunas com isso e essa víbora não os toma e tem ataques loucos!

Parou de escrever ao lembrar-se de como isso a divertia, ainda sorrindo eufórica continuou, fincava a caneta no papel como se quisesse perfura-lo:

“ Como estava escrevendo, você e eu estaríamos perdidos! Carla descobriu tudo! Aquela idiota da Débora queria um motivo para se matar e eu dei! Aquela imunda queria Gerard... Naquele dia disse a ela que ela amava a mim, e havia me escolhido, problema dela ter morrido, menos uma entre Gerard e eu...”

Parou novamente ajeitando os cabelos de uma forma mecânica e voltou a sequencia da escrita:

“... Aline fugiu de casa com Ray mesmo sabendo que ele gosta de estar comigo, eu desejei o que ela merecia... Além de uma cabeça oca, uma esmagada! Preferiu a ela, Ray, ficou sem!”

“Mas com Gerard é diferente, como não percebi que ele vem estado com a imunda da Carla há quase três anos? Então o cretino curte as irmãs... Ela era a escondida, então! De certa forma isso a agradava.”

Amanda admitiu que Gerard parecesse sentir algo de estranho por Carla, mas nunca abriu mão dos carinhos que Amanda lhe oferecia há tempos...

“Ele não tinha o direito de me esconder isso! Devia ter me contado que iam se casar, eu não me importaria, dessa forma, também gosto de ser livre...”

“ as preferencias dele não eram mais importantes antes da nossa sorte mudar, querido diário...

“Depois dos remédios na bebida, cheguei a pensar que Carla morreria com a dosagem, e todos pensariam em suicídio, ela não tem NENHUMA CREDIBILIDADE! Mas que a idiota fosse conseguir acordar, tentar ir ao teatro, coitadinha... É muita sorte ela ter tentado descer as escadas, esqueceu-se de nós, e de certo, não valerá para Gerard, afinal de contas, não dançará mais, é melhor do que vê-la virar cinzas!”

Amanda fechou o diário com lentidão e carinho, guardou de volta cuidadosamente onde pegara e preparou seu banho...

Os acontecimentos do dia anterior lhe voltavam à mente:

As palavras de Carla realmente mostravam que ela havia descoberto quase tudo, então, sabia também o quanto ela desejava Gerard, o que ela não sabia, é que ele cedia aos seus carinhos!

Durante toda a vida, Amanda odiou a irmã. Desde bem pequena, simulava situações em que a mãe, uma mulher que costumava ter caso com os jovens entregadores da mercearia local, sempre julgava Amanda nova demais para mentir e Carla era sempre culpada e punida de alguma forma.

Certa vez, já bem com doze anos, Amanda flagrou a mãe com um desses rapazes, nada disse, mas depois de um tempo, os abordava quando os via saindo do quarto, não tinha nada que ela não pudesse ter. Era fato em sua cabeça.

O pai, um homem trabalhador, bem sucedido em seu trabalho e belo, frequentador assíduo das termas locais. Depois das brigas em relação ao comportamento que Carla tinha em mostra-se mais habilidosa em cometer rebeldias ( que na realidade nunca foram cometidas por ela). Tornou-se cada vez mais repreendida e menos ouvida, com isso, tornou-se uma criança fechada, como Amanda não era sútil em suas artimanhas, Carla teve que desenvolver um senso durão, para evitar que a irmã tivesse coragem de fazer algo que a pudesse colocar em situações piores. E como todos cercavam a falsa simpatia de Amanda, Carla se afastava, podia jurar que a irmã atraía coisas ruins, a via olhar feio e uma babá se queimar com chá... Etc...

O casal ia se afastando, e o que antes foi um casamento, virou aparências.

Nádia vivia mais preocupada com sua aparência, sua casa e em esconder seus “homens jovens”, do que averiguar uma situação entre as filhas.

Era muito fácil para Amanda manipular quem mandava no dinheiro da casa, seu pai. Era atenciosa, procurava ser o que impedira que a irmã fosse: Carinhosa e atenciosa. Carla cada vez mais se tornava frequentes em suas visitas médicas, Amanda era conselheira do pai em relação ao que fazer com a irmã, inocentemente ele a julgava uma criatura meiga, justa e responsável, assim como todos. Exceto Carla.

Era muito fácil para Amanda desejar tantas babás doentes... Pessoas acidentadas... Seus diários escondiam todo seu lado... Aquele que as pessoas que se julgam normais não costumam ver.

Amanda ao terminar o banho ficou a olhar-se demoradamente no espelho. Virou a filha perfeita, experimentou todos os ex-namorados da irmã, com certo ódio escreveu que tantos anos de tratamento psiquiátrico transformaram Carla em cinzas, por que os homens a viam como uma fênix? Com um sorriso maléfico não pode deixar de desafiar:

“aquela fênix renascer daquelas cinzas, dessa vez não, querida irmã... Antes. meio doida e agora doida total, e sua ficha, limpa!”

Não esperava que as coisas saíssem melhor! Era fácil, usar qualquer coisa para atingir os nervos de Carla... Insinuar que a morte de Débora poderia ter sido sua culpa era foi uma ideia que Amanda julgou genial, mexeriam com a cabeça desalinhada da irmã.

Ajeitou os longos cabelos loiros em frente ao espelho, depois de uma breve olhada em uma camisola que usava e roubara da irmã antes que esta fizesse uso. Ela, por sua vez, não a estava estreando quando se dirigiu ao quarto de Carla para consolar o amigo Gerard.



BAILARINAS ALIENADAS DIZEM QUER:

Carla voltou para casa dias depois, alegre e falante, não mais reconheceu como seu amor Gerard, o homem que a pediu em casamento e cedia aos “carinhos” da irmã. Carla e Richard casaram-se poucos meses depois e ela pouco residiu com Amanda e os pais.

Em resumo:

Nádia assumiu um namoro com o dono da lavanderia poucos anos depois do marido deixa-la por uma linda e misteriosa cigana.

Rubens, dizem ser um homem feliz. Com a ajuda de Richard, o atual genro, pode entender melhor as filhas que tem e praticamente recomeçou a ser pai. 

Carla conseguiu recobrar uma parte da memória, inclusive indícios que levaram o pai e o marido a descobrir o caráter doentio da irmã.

Amanda afastou-se de todos ao ser descoberta, ver a desabrochar na irmã tudo que queria ver murcho era demais. Fazendo a cabeça de Gerard, sumiram e se casaram em outra cidade, Amanda bebe demais, nunca tiveram filhos em todos os anos que se tiveram relações antes, pois Gerard pediu a anulação do casamento logo em seguida.

Carla e Richard têm dois belos filhos, embora a esposa não tenha recobrado toda a memória, são felizes. Seus instintos lhe diziam para ficar longe de Amanda e Gerard, a irmã ela tinha uma ideia, mas quanto a Gerard, simplesmente, para alegria de Richard, o deixara de lado.

Voltando a Richard...

Este, certa noite confessou algo ao sogro que nunca havia revelado um fato a sua esposa, disse que se sentia temeroso, até mesmo porque revelou o fato a pessoa errada, pois na noite em que Carla chegou ao hospital e o chamaram, leu o prontuário com atenção de sempre:

Uma jovem de vinte e três anos, trajando um figurino de ballet, era portadora de depressão, tinha a perna quebrada em três lugares, uma fratura e tudo isso em uma queda que ainda havia lhe causado um aborto.

Richard contou ao sogro que foi ao leito da moça e de imediato, muitas coisas não importavam mais...

Achou melhor afastar da cabeça o encantamento que sentia e procurar o pai, já que a moça estava desorientada. E uma notícia daquela é uma coisa que até hoje, Richard temia a reação...

Explicou que logo, pelo comportamento tenso, percebeu com certo incômodo que Gerard era o pai da criança, mas como estava por demais nervosos resolveu procurar a pessoa que parecia mais calma e ao explicar o fato a Amanda perguntou a quem deveria informar, esta me olhou de forma firme e disse que eu poderia poupar a todos de mais essa tristeza.

Rubens: aprendeu ouvir e julgar menos as pessoas.

Nádia: ainda prefere os homens de vinte.

Gerard: logo após abandonar Amanda teve lançado em sua cara pela mesma o filho que Carla perdera do qual ele era o pai. Gerard não desmascarava o médico, pois tinha medo me magoar seu amor, Carla. Assim como seu rival ( por ele assim visto), ambos: usavam máscaras para não magoarem seus amores em comum.

Amanda: com todo empenho de amigos e parentes, vive em um manicômio, diz que era uma grande bailarina, jogaram-na ali... (Nunca fora, Gerard tinha um grande defeito, manias sexuais estranhas e Amanda sempre as satisfaziam, como esta era uma bailarina desleixada, o amante a colocava onde podia para não perder o que ela lhe proporcionava de acordo com sua mente sexual doentia.)

Até mesmo Richard virou seu alvo de inúmeras investidas e nenhum lucro. Amanda virou sua paciente por necessidade, até hoje o próprio Richard diz que às vezes o que Amanda almeja é uma incógnita, repete o tempo inteiro:

“eu duvido que aquela cinza vire uma fênix!”

As bailarinas alienadas dizem que Carla e Richard, vivem felizes e apaixonados, que o marido é o médico e Carla é a única visita que Amanda recebe. E sabem que esta mesmo que lembre, jamais diria a irmã que esta hospedou um dia sequer o filho de Gerard no ventre, Richard sabia disso.

J.Mendes

A BAILARINA, O MARUJO E O PERGAMINHO.


Talvez em um lugar, em um ano mais desconhecido que seu local. vivia Judith, moça simples de formação religiosa. A própria era de uma beleza muito comentada na cidade, porém, Judith, não tinha o direito de achar isso em seu espelho.
Sua mãe, um mulher de muitos homens e poucos apegos no passado, dizia:
-Criatura estranha!  Parece seu pai, aquele bêbado!
A filha, após escutar a ofensa desferida contra ela e ao progenitor que jamais tivera a oportunidade de conhecer, pois a mãe, o abominava. Isto não era motivo para Judith julgá-lo mal, ninguém era bom o suficiente para a velha, sequer a bela e virtuosa filha...
Esta pegava a garrafa vazia da mão da mãe e a conduzia pacientemente até sua cama, enquanto a mesma desferia resmungos contra ela, e sua irmã por parte materna, Muriel, ria.
Após isso, ia até seu quarto, era pequeno, na realidade um pequeno pedaço do sótão, mas era limpo.


Judith era uma moça solitária, embora simpática e querida no pequeno litoral, não conseguia entender o que fazia com que a mãe a diminuísse tanto!
Em um súbito olhou-se no espelho, o rosto pálido, longos cabelos negros presos no costumeiro coque de bailarina.
O ballet! Podia-se dizer que era a única coisa ao qual a mãe não impedira para sua felicidade, no entanto era obstáculo em comentários venenosos:
- Bailarinas não são bonitas? Que fazes lá?
Fazia tal pergunta sóbria, e enquanto cuidava do jantar, embora bebesse para falar suas “observações”, sóbria as proferia com uma frieza maior.
 Sentiu um tremor ao lembrar as palavras da mãe.
Em uma paciência habitual soltara os cabelos do caprichoso coque, mas ao invés de deitar-se não pode deixar de sentir um desejo quase incontrolável de encarar a noite além da pequena janela do sótão, que por estar ausenta de luar, mostravam estrelas de forma merecidamente vaidosa. Com cuidado ao descer as velhas escadas de madeira e usando um velho e surrado vestido florido, este lhe parecia uma luva.
Caminhara algum tempo em direção à praia. Ao chegar, tirou as sandálias e começou a andar afundando os pés na areia enquanto os sentia massageados e esfoliados. Ia sentar-se quando uma voz jovial a assustou em um sobressalto perdeu o equilíbrio e caiu na areia.
O dono da voz imediatamente acudiu, quis recuar mais uma dor aguda no tornozelo a fizera dar um gritinho, mais de pavor do que de dor. O rapaz a sua frente parecia atônito:
Perdão...  Eu apenas disse boa noite... Não tive intenção... Meu Deus! Dói tanto assim? – O rosto de Judith estava tão pálido que se tornara reluzente ao brilho de tantas estrelas... Refletidas no mar... Teria ficado encantado se não fosse ouvi-la murmurar agarrada ao tornozelo:
- não se trata de dor... Seu tolo! – Levantou-se ignorando as mãos atentas do desorientado rapaz... – Você...  Esquece! – Virou-se e após alguns passos  mancos ouviu a o rapaz lhe dizer em tom firme:
- não sei o dano que lhe causei Senhorita, mas acredite, não foi um feito de meu coração, não entendo o que lhe impedi de fazer, tamanha deva ser a importância, não pensei que garotas como você ficassem bravas desse jeito...
Voltando a passos mancos ficou de frente ao desconhecido:
-Que jeito é esse? – Como estava brava!
- Jeito de um homem, mas me permita acrescentar que nem tudo é o que parece ser e que as coisas tem seu tempo certo...
Não precisou mais do que a palavra tempo para que Judith retomasse em seus passos mancos seu rumo de volta ao seu quarto, após um banho aos prantos analisou o pé com calma... Meu Deus, se já estava inchado, acordaria roxo. Era o seu grande dia...  Haveria uma audição na pequena escola de ballet que frequentava há anos, era aplicada, flexível, esbelta sem ser alta, bem magra, mas longe de ter um aspecto doentio e sim delicado. Agora, mas uma vez em sua vida estava tudo acabado! Pelo menos não seria desta vez eu concorreria ao “grande Teatro”, não teria uma vida sem ofensas de uma mãe e uma irmã que nunca soubera onde se encontraram, apenas sabia que sua presença era senão um motivo de piadas era de grande incomodo.
Judith se dentou... Não sabia o tempo que passara chorando mais ao acordar não saíra da cama, sabia que os professores iriam até sua casa, o que teria para mostrar? Um pé berinjela? Do seu quarto pode ouvir o número de vezes que a porta de entrada da pequena casa fora batida por sua mãe, provavelmente por alguém que a procurava até as últimas horas da audição o barulho se repetira.
Sua irmã, uma criatura bonachona, com uma cabeleira vermelha, bochechas rosadas e vastas sardas fora ao seu quarto, depois de um dia inteiro, claro.
- preciso falar contigo sobre Alberto... – Ao ver o pé da meia irmã arregalara o olho... – Mas o que...? Então você não descobriu! Ou seja: Se machucou sozinha, e nós pensando que você havia descoberto e estava acuada... – riu e se deixou cair na cama com claro alívio, a centímetros do “pé berinjela “  de Judith:
Do que está falando, Muriel...? – os desatinos de Muriel, era a marca que faltava para agonizar o dia já que a mãe sequer a vira...
Ainda corpanzil esparramado na estreita cama começou a narrar o fato com um olhar preso ao teto, demostrando desprezo a sua ouvinte atenta:
- Alberto e eu estamos juntos...
-Muriel, eu os vi no cemitério...
-Pois viu pouco...
A cena do corpanzil da irmã atracada nua ao jovem zelador da escola de ballet fora algo que lhe causaria novo mal estar caso a mesma continuar...
- vamos ficar juntos.
-casar?
- Cale a boca, isso tem haver com você... Não estrague tudo de novo!
Mal podendo assimilar o que ouvia e sem perder tempo com defesas acompanhou a narrativa:
- Somos homens e mulher, Judith, e você, uma tapada... Alberto me garantiu que gosta de uma mulher como eu, mas que na realidade o povinho desse lugar ainda acha que VOCÊ tem que casar primeiro, por isso, ele disse que não quer ser o cara que chegou e quebrou a tradição, ele pediu a sua mão a mamãe e embora ela dissesse que sim, ele disse que não quer uma bailarina para se exibir e sim uma mulher para lhe filhos e cuidar da casa. A tua cara! Eu Fico com o melhor...
Sem conter o nojo, Judith lançou as cobertas para o lado:
-Sujos!
-E tem mais! Ele quebrou o palco, ninguém se machucou, estava pronto para sua marcação... Você de pé quebrado, acabou ballet, não tem futuro mesmo, case com ele enche-te filhos e me resolve a vida!
Judith embora calma sabia ficar brava, mal Muriel fechara a boca e Judith a arrastara do quarto pelos cabelos.... A mãe que passa pensou em abrir a boca...
- Se aquele porco e essa imunda, amante dele! Chegarem perto de mim... O padre saberá de tudo!
-E se pensa que acoitarei isso, Muriel, amanhã diga ao seu amante para se despedir do emprego e se apresentar a polícia – com um bater de porta, sequer os passos ouvira do outro lado, dois rostos atônitos isso que deixara...
Nunca havia perdido o controle daquela forma, não com elas! E sentia-se bem... Por um momento seus pensamentos foram atraídos para o que acabara de ouvir... amanhã cuidaria disso, Seu pé doía, mas sabia mancar, ao cair da noite adentro desceu em direção a praia, levara mais tempo, mais ao chegar voltara ao local do tombo. Horas se passaram e nada...
Os dias seguiram, medidas foram tomadas, o rapaz fora demitido ( Estava obcecado pela bailarina e tentara usar a irmã o velho zelador falara da fixação do rapaz, mas ao vê-lo com Muriel, achara tudo bem) mais fugira ao ser chamado pelas autoridades, sua irmã o seguiu, deixara um bilhete para mãe, esta apoiou Muriel, o que não foi espanto para Judith, porém  ao ouvir:
- se não tivesse sido imbecil em se machucar sozinha... Esperasse! Quebraria o pé, sairia dessa vida inútil, casaria, não saberia de nada e ajudaria sua irmã!
- como podem? – ao ter como resposta o dar de ombros da mulher, virara as costas e correra..
Fora ao seu quarto e pegara um papel em sua escrivaninha... Não se dera ao trabalho de sentar ao terminar olhou em volta e....
O porto... Era tudo que lhe vinha a mente, o pé, agora em condições atravessava a escada e o caminhos a passos de “Gran Jet”...
Poucos ante de chegar ao porto mexera em uma lixeira e de cara encontrara uma garrafa e uma tampa, nada difícil de conseguir, havia muitos homens bêbedos beirando os portos daquela região. Sem perder tempo Judith, que havia enrolado seu escrito, o colocou dentro da garrafa e tapou.
Chegando ao porto, ainda ofegante. Entre soluços e respiros, preparou o maior arremesso que pode mais antes de concluir, uma voz familiar lhe fizera derrubar a garrafa fazendo com que ela se quebrasse.
Atônito o rapaz estirou a mão para que ela se mantivesse parada a fim de não se cortar com os cacos espelhados, após recolher olhou envergonhado e ao mesmo tempo de forma sedutora e disse a moça que parecia mais feliz, embora assustada.
- Cortar os seus pés é como tirar água de meu patrão. – sorriu.
- como sabe...?
Com um jeito maroto e um sorriso de canto respondeu:
- Eu procurei saber de você... – ao notar o olhar espantado de Judith, corrigiu: Calma! Eu não a persegui! Apenas não entendi porque o seu pé...
Meu pressentimento me disse que deveria ser uma dançarina, e acertei, fui vê-la em ensaios...
- você me viu dançar?
Afirmando, entregou-lhe a carta...
- quanto tempo vem me vigiando? – indagou de forma calma enquanto sentava na beira no cais...
Ao perceber que seria inútil mentir confessou:
Desde aquela noite, quando  vi você voltar mancando, me senti na covardia de não te encarar, embora quisesse!
Tamanha fora a sinceridade da afirmação que Judith ergueu a cabeça para encarar o rapaz bonito em pé ao seu lado, cabelos despenteados, barba cerrada, olhos castanhos e o que seriam quase trapos para sua mãe, um short, uma camiseta e um par de pés descalços... Para judith, bastava vê-lo novamente, ele salvara sua dança!
O estranho ao perceber seu silencio sentou ao seu lado e contou sua vida... Um jovem homem do mar, de porto em porto. Falou das vezes que a vira e mencionara mais tarde em conversar posteriores ( pois os encontros noturnos a beira do cais, eram assíduos).
Judith tornara-se mais bonita, a pele antes pálida ganhara uma cor que só tornara maior sua beleza, a mãe, mulher antiga e maquiavélica sabia que a filha estava bem é que a dança lhe abria as portas, nada dizia, elogia-la devia ser algo que Judith sabia que ela não poderia fazer, mesmo se quisesse.
Muriel  sumira com o amante e uma grande apresentação aconteceu em uma noite, muito após isto. Era a mais bela que a escola apresentaria a cidade, a história de um corsário...
Foi um dia cheio desde a hora que acordou sua mãe, fazia questão de mostrar cara de velório.
A apresentação fora um sucesso, o grande teatro estava presente e Judith e algumas de suas alunas foram selecionadas!
Aos saber de tal notícia, não importara-se com o figurino, correra...
O destino, já conhecido... Parou e sorriu ao notar a figura tão espera por sua visão em encontraste com a lua, correu em sua direção, com um salto pulara no colo do sorridente marujo.
- Você assistiu tudo?
- Tudinho... – sorriu e logo olhou para os olhos fixos da bailarina radiante a sua frente...
De repente, destinos foram traçados de forma tira-teima de palavras:
- Fui convidada para o grande teatro, levarei algumas alunas! E você...
- o que tem eu?
- gostaria de... – Sem saber ao certo o que iria dizer, Judith atentou-se para a situação:
- me levaria com você?
- Esqueceu-se de mencionar que deveríamos ser casados?
Enrubescendo, pois isso nunca fora mencionado entre eles, antes que baixasse a cabeça, o rapaz a sua frente a segurou pelos braços e a sacudiu de forma gentil?
- É claro que quero me casar com você! Mas não posso... Meu patrão disse que precisamos zarpar... Não sou um ladrão, sequer um pirata, trabalho e meu trabalho é no mar, tem uma mulher que me espera...
- eu já devia... – antes que suspirasse foi cortada...
- minha mãe é muito velha, meu pai nunca voltou de um duelo... Nunca sei se a encontrarei viva e meses em um navio arriscaria sua saúde...
Antes mesmo que pudesse se manifestar, o jovem a cortou:
- Nem pense nisso! Você não tem ideia do que seria por uma garota em um navio de homens! Nem meu capitão poderia garantir sua segurança...
Parou ao sentir enjoado e notar o espanto de Judith...
-Seu lugar é aqui...
-Sem você?
-Nunca!
-Pensa dessa forma?
Ajoelhando-se  ao seu lado e segurando aos mão disse:
-Vê aquela lua? Lembra a história do acaso? Quando disse que não existia? Então, o acaso nada cria, se não tivesse caído, teria sido vítima de uma queda possível mais grave... Não foi a toa tamanha intervenção...
Sem poder conter as lágrimas que insistiam em correr, Judith procurava assimilar o que não parecia ser um rejeitar de um homem como lera e ouvira tantos casos.
Escrever-te-ei em e fora do mar... E tenho certeza que minhas cartas chegarão a você!
Judith mal podia acreditar no que ouvia, porem calou-se, com um sorriso disse:
Posso ser a primeira e entrar a minha? Lembra da carta que me entregou no dia em que eu ia atira-la ao mar?
Assentindo com a cabeça ele pegou o papel que lhe era estendido:
Após ler Judith impedindo ergueu a  o beijou.
Ambos tinham tida uma nova experiência naquela noite...
Judith chegou em casa em encontrou a mãe furiosa:
- onde pensa que estava?
Judith parou de frente a mulher que carregava vestígios de uma beleza mal usada e replicou:
- Com um homem!
O tapa que fora em sua direção  ao seu rosto fora segurado pela filha:
- chega mamãe, aceite suas verdades!
Irei embora de sua casa, mas não daqui, não irei com o teatro, espero por alguém...
-Ele?
-É um simples homem do mar...
-Uma como você
- Sou a deste porto, então!
- como se atreve?
- Sendo eu e com isso feliz.

Depois desta noite, mãe e filha tiveram suas vidas à parte, Judith ao invés do grande teatro, ficar na pequena escola. Embora tivesse buscado especialização fora...
Todas as noites, as meninas da região a via perto do porto... Em um dia específico de luar...
Nunca se casara, mas concebera Miguel meses após ter deixado a casa da mãe, contou com a moradia da escola e dava aulas teóricas de ballet, não foi difícil para Judith ter uma vida tranquila ali.
Seu filho era visita constante, um médico e belo rapaz, muito parecido com a mãe, porém não era o tipo de homem que ficasse parado, voltava para ver de bom grado a mãe.
Os anos se passaram e Judith parecia sempre feliz, embora solitária, o porto era algo que as pessoas sequer comentavam, afinal, 62 anos depois ela ainda voltava em certas luas ao porto.
Bom é claro que é apenas um conto bobo...
Muriel viveu o restou da vida com Alberto, um homem bêbado violento e mau pai, teve três filhos que foram criados a moda deles, nunca mais teve notícias concretas além de boatos.

Mas bailarinas alienadas da época afirmam que quando aos 82 anos Judith desencarnara, foram encontradas centenas de cartas em seu quarto, todas de um único homem que sempre assinava como: Homem do mar...
Pelo estado logo se entendeu que chegaram por garrafas!
Mas a estória não acaba aí,
Meses depois um senhor, de uns 83 anos apareceu procurando pela sua remetente, inclusive ele afirmava que ela havia lhe dado a primeira carta, mais parecia um pergaminho:


“Não sei seu nome, marujo, irei te chamar de “homem do mar”, se um dia você achar esta garrafa volte para meus braços, minha vida será feliz se ao menos obtiver a resposta que poderei esperar por ti”
Judith ( A garota que fica brava como um homem).

O homem quis ficar mais logo o filho só o conhecera no jazigo ao lado do da mãe.

                                                                                                                           
Bailarinas alienadas afirmam que até hoje podem ser visto, em certas noites de luar, os dois...  Dançando como anjos na beira do cais.
J.Mendes




o crime, o beijo e o porteiro

Era uma tarde tranquila, ao menos naquele horário, embora fosse um velho prédio, desses em que escritórios e residências dividem os habitantes e frequentadores de todos os tipos.

No quarto andar funcionava apenas uma escola de Ballet. Gabriel, porteiro daquele prédio há 15 anos dera uma ligeira olhada para a portaria a procura de Elise, abaixou a cabeça pensativo para os pertences havia em sua mesa, correspondências... Reclamações...
Seus pensamentos logo foram novamente atraídos para Elise, sua noiva, era uma das bailarinas da escola que funcionava no prédio. Não a vira passar com em meio as alunas, e já se passavam alguns minutos...
Em um tarde como aquela, Gabriel fazia seu trabalho em analisar a entrada e saída das alunas mais fase “debutante felante , não gostava de confusão e falatório na portaria, isso irritava os moradores e eles à ele. Todas passavam elegantes em seus coques e semi-trajadas para as aulas, certo dia, enquanto algumas alunas passavam sentiu alguém a olha-lo fixamente, não fora seu engano ao se virar e deparar-se com uma jovem bailarina a olha-lo com um sorrisinho, esta ao se deparar com o olhar de seu alvo fez um biquinho e beijou a palma da própria mão, com o mesmo biquinho soprara a palma de forma graciosa; Sentindo todo o rosto arder, Gabriel baixou a cabeça, mas não precisou levantar a cabeça e ver que a moça ria dele.

As tardes seguintes tal era cena repetida. Àquela hora do dia era a que Gabriel ansiava, passara a sorrir em casa sozinho quando ouvia algo bobo na TV, as pessoas faziam isso, as mais exigentes, as vezes, e ele nunca. Sozinho no mundo, nunca tivera filhos, mais já um esposa, uma mulher ao qual deixou para trás juntamente com as mágoas e maldades que esta um dia lhe causara. Não tinha notícias, não tinha filhos com a tal, divórcio era um documento bem resolvido para Gabriel ter o que chamava de sossego. Ruth, a ex-esposa, era uma mulher mesquinha.

Censurou-se ao pensar na megera, Elise... E seus beijos...

E meio a devaneios, repentinamente, enraiveceu-se contra si mesmo: “uma garota do corpo de baile, quantos anos teria, dezenove?!” – nessas horas dava-se por convencido que estava parecendo um velho assanhado! Sentiu-se, repentinamente, tão envergonhado que dia seguinte não levantara a cabeça para a jovem que continuava a olha-lo, minutos se passaram e sem mais conseguir a olhou com certa raiva, esta sem tempo de notar seu semblante, fechou os olhos e repetiu o gesto. Gabriel a acompanhou por um momento até as escadas, sempre a preferida das bailarinas, com Elise não era diferente, mas antes que esta alcançasse o primeiro degrau, Gabriel já havia saído de seu estado de observador e correu a segurar-lhe o braço:

-Quem é você?

A moça, espantada tentava se desvencilhar das mãos que lhe arrastavam, mas o tamanho de Gabriel comparado ao seu, seria inútil, deixou-se ser conduzida. Gabriel pegando-a por ambos os braços desta vez, perguntou:

- que espécie de brincadeira é essa, garota? Acho que senhoras e senhoritas não inventam mentiras sobre porteiros e assédios que nunca aconteceram! – Berrara e sequer dera tempo de que Elise dissesse algo

- você é pior! Provoca! Falarei com seus pais! – Encaminhando-se para a mesa da portaria anunciou enquanto pegava o aparelho – na realidade, não será necessário, falarei com a direção... com sua professora...

-terá que ligar para o teatro, nesse caso. - Colocando o telefone no gancho ergueu as sobrancelhas para ouvir a garota, esta ainda mantendo o tom calmo acrescentou:

-minhas alunas me esperam. – subiu as escadas, no entanto, antes, lhe enviara um segundo beijo.

Sem saber ao certo, discernir se estava atônito pela informação ou pelo gesto, olhou o telefone no gancho, sem na realidade ver o objeto, e pensou:

Era uma professora? Teria pelos seus cálculos mais de dezoito? Mal pensara isto e já se vira como um idiota:

- Essa garota escolheu o cara errado para brincar...

Seu turno fora trocado e a bailarina beijoqueira ainda não havia descido, Gabriel fora até seu pequeno apartamento no primeiro andar, tomara banho e colocara uma calça jeans, vasculhou na geladeira e abriu uma lata de bebida, ao se acomodar de no sofá pensou na garota: “ amanhã terei uma séria conversa com a diretora, aquelas meninas não podiam trata-lo de tal forma! Mentirosa, ninfeta abusada...

Não conseguira concluir os xingamentos, um leve bater em sua porta o fez abri-la com rapidez e maior a fora ao dar de cara com o rosto sorridente da dona de seus pensamentos anteriores. Sem esperar que Gabriel abrisse a boca, este lhe passara aos mãos pelo pescoço e lhe o oferecera a sua. Era o mínimo que conseguira mediante a grande diferença de altura entre ambos. Gabriel sem pensar mais, aceitara os lábios. Por minutos esqueceu-se de muitas coisas, porém, como um relâmpago o corpo delicado grudado ao seu lhe causara uma ira, desgrudando dos lábios oi quais estavam lhe atirando o juízo arremessou a pequena figura ao sofá:

-É Louco? – pela primeira vez viu aquele rosto realmente bravo, era sedutor desta forma... Sem permitir maiores análises:

- por que está fazendo isso?

- isso o que?

- passando-se por professora para me enganar, eu achar que você é uma mulher e me encrenco com uma garota mimada e idiota!

-do que está falando...?

- do que estou? - pegou sua bolsa e atirou contra ela mesma:

- quantos anos?

Esta por um tempo o encarou incrédula. Mas ao notar a decisão, abriu a bolsa e lhe entregou a identidade:

Gabriel com um sorriso cínico pegou a carteira estendida, era de habilitação – Elise era seu nome, tinha 25 anos...

- satisfeito, senhor inspetor de bailarinas? – enquanto guardava a carteira na bolsa, Gabriel manteve-se parado, este se levantou e caminhou em direção a porta...

- porque me manda beijos? Beijou-me...

- porque quero me casar com você! – respondera e sem mais saíra deixando seu ouvinte sem palavras.

Daquele dia em diante, daquele momento, pois mediante a declaração de Elise, esta mal conseguira dar mais que três passos e Gabriel já a puxara para o apartamento aos beijos.

Namoraram meses poucos meses antes do noivado. Elise era o oposto de Gabriel, dez anos mais jovem, era uma professora de ballet ativa, sonhara e engraçada. Suas manias de sair e chegar sem avisar e de achar beleza em casos românticos e tristes, deixavam o noivo irritado às vezes.

Fora pensar na surpresa e depende... Se viu envolto pelos braços de Elise:

-porque faz isso? Sabe que não gosto...

Elise já havia se sentado em sua mesa e ele viu que não lhe ouviria...

- sua turma já subiu...

-hoje, pego mais tarde, neste caso, ficarei aqui... – ia puxando a gravata de Gabriel ao acrescentar, mas ao notar um figura recém saído do elevador, ergueu-se e com um rápido despedir carinhoso seguiu em direção as escadas, sem cumprimentar o homem parado.

Era Aroldo, um velho ranzinza, um aposentado que ninguém sabia ao certo do que, se é que o era. Os mais piadistas costumavam dizer quer este era mais velho que o prédio.

Elise não o suportava:

- não moraremos aqui! – dizia entre lençóis ao noivo toda vez que ele considerava a hipótese de morarem ali para que pudesse consumir o casamento pelas vias da lei.

- E para onde vamos, Elise?

-Gabriel, ele me odeia!

- Ele odeia o mundo, querida...

-não! Vejo o jeito que me olha, e sinto o que ele diz de mim... Mesmo quando você nega! – berrava.

Gabriel negava, sempre. Mas não sabia como, o que a noiva dizia era a mais pura verdade, senhor Aroldo parecia não gostar de Elise e sempre tinha um jeito menos arrogante do que de costume para lhe dizer que a noiva era uma mulher sem respeito. E claro, que Gabriel não podia fazer sequer algo, até mesmo porque o velho era esperto usava “piadas”.

-Conheço o tipo que dança... – colocava o chapéu e saia sem esperar resposta, mais falando consigo mesmo.

Gabriel já não sabia mais se segurava a raiva do velho o a soltava de vez!



Logo Elise pegar as escadas acima o velho se aproximou da portaria com de forma diferente da habitual, estava disposto a falar algo que não fosse uma ofensa:

- me diga rapaz, há alguma coisa mais séria com essa mulher?

- na realidade, Elise é minha noiva, senhor...

O velho o olhou com a expressão fria e indagou:

-quando pretende cometer esse desatino?

- não permitirei que fale qualquer coisa a respeito de...

- quando?! – o berro repentino do velho o fizera parar e responder com voz firme, embora o susto.

-Mais breve do que ela imagina!

Tornando a se afastar, mas ao invés de sair o velho voltou ao elevador e murmurou de forma desgostosa:

-pensei que fosse um rapaz de juízo, Gabriel...

Antes que o assustado porteiro dissesse algo de volta o velho continuou com o mesmo tom de pesar:

-... Pensei ser um home que soubesse cuidar de si...

Entrou no elevador e nada mais foi dito.

Já em sua casa com Elise naquela noite não pode deixar de pensar na conversa com Aroldo.

Enquanto a admirava diante de um espelho posto por ela na sala de Gabriel, este, sem deixar de admirar-se com a beleza do longo “tu –tu romântico”, daqueles que vão quase até as canelas da bailarina. Era branco e prata, um delicado véu pendia do coque.

- tá parecendo uma noiva. – Falou enquanto sentava na beirada da mesa pra melhor apreciar a visão.

- Mas é isso!

- O que?

- amanha, na apresentação, é isso que serei! – disse com um sorriso contagiante.

Sem conter o interesse Gabriel questionara sobre o ballet tão esperado pela noiva, segunda até então entendera Elise era uma e noiva principal, ballet não fazia parte de seu interesse por mais que amasse Elise, nunca fora a uma única apresentação na noiva.

Esta fez alguns passos de dança e acrescentou:

- Desta vez você irá querer estar presente, veja o que farei no palco para ti:

“Com um gracioso passo de ballet acrescentou um beijo a mão e o enviou.”

Descendo da pose implorou:

Vá, por favor, sei que é uma noiva que morre...

-lá vem você!

Tirando o sorriso antes estampado no rosto bonito, Elise indagou dando um passo a frente, receosa, quantas vezes na vida ouviria aquela frase: “lá vem você!”.

- Essas suas manias de morte, amor e beleza!

- é apenas uma encenação...

-deveria! Mas você vive uma! – As palavras do velho Aroldo lhes ardiam na cabeça, evitou olhar a figura bonita a sua frente a fim de não perder o rumo da raiva, mas esta continuou:

- eu irei te mandar um beijo, gostaria que você o recebesse estando na plateia. É meu momento e seu também. Depois poderemos...

- seus beijos... – virando as costas indagou quase que sem coragem de encarar a figura:

- quantos beijos desses não foram distribuídos por você?

Mal abrira a boca e já rezava que não o tivesse feito. Virou-se, mas ainda parada, Elise, sorriu de forma idiota e acrescentou:

- eu sonho, mas não vivo uma realidade sem respostas.

-gosto de ser uma surpresa boa em sua vida...

- você tem o hábito de sair e não deixar recados!

-E quantas vezes foi a minha procura sem que eu avinhasse a você?! – Seu tom agora era alto e grossas lágrimas corriam pelo rosto.

-então é isso que a bela Elise quer? Um homem tolo aos seus pés?!

Mantendo em meio a raiva sua veia irônica ela desferiu:

- até que não seria má ideia Gabriel, mas o que me confortaria em saber que alguém se importa, não me venha cobrar um paradeiro, do qual você tem sequer o trabalho de ir até lá, se me demoro...

- é por isso que me deixa esperando? – perguntou sentindo a cólera lhe subir ao rosto.

-Exatamente, uma vez na vida gostaria de ter a sua atenção sem que eu tivesse que chama-la... E meus beijos, se ainda os quer, terá que ir me ver amanhã, mandarei o beijo e se ao sair do palco não vê-lo, nunca mais porei os pés neste apartamento!

Elise saiu e Gabriel procurara segurar a cólera com um gesticular de braços em respostar ao bater de porta da noiva.

A medida que a água quente ia molhando o corpo Gabriel ia percebendo que fora duro. Terminando o banho e se vestindo de forma mais rápida que o habitual ainda olhara o rosto que deveria ser barbeado naquela rotina, e o fez. Ao sair do pequeno banheiro não notara a presença de Elise, pequenas brigas, menores claro, que a que houvera há minutos antes, sabia que a noiva era dramática e costuma se refugiar na academia do quarto andar quando brigavam. Saíra de casa e subira ao quarto andar, embora fossem altas as horas a porta e um leve dedilhar no piano mostrava que Geraldine, a locatária estava no local. Mostrara satisfação ao ver Gabriel parado a porta:

- Fazendo uma ronda? – indagou rindo

- sim... Na verdade Elise ainda está...

- Elise já foi...

-como assim...?

- Levou o figurino e disse que passaria a noite em sua casa para ter um bom desempenho amanhã.

Um tanto confuso com a atitude tão independente dele que Elise tomara, ainda assim, não se calou: 

- o que sabe de Elise, senhora? – ao notar o olhar de espanto da idosa bailarina, se corrigiu- Quero dizer, desde quando a conhece, como viveu?

- Todos sabem da vida de Elise, Gabriel, não é segredo, ela conta a todos os que perguntam, e é verdade, pode acreditar: viveu toda sua vida em orfanatos, entrou jovem para o projeto de ballet que um dos orfanato oferecia, e logo era uma professora primária e bailarina. O teatro não a perdeu, é uma honra tê-la como professora de minha escola. O mais engraçado é que vivia dizendo que só beijaria o homem com quem fosse casar-se – deu uma pausa e riu de forma carinhosa - no orfanato o boato é que isso era uma desculpa pelo que as pessoas julgavam ser um lesbianismo da parte de Elise. Na verdade é apenas uma vontade dela, beijar uma única pessoa... Rara e estranha, e veja como estão felizes.

- Ela lhe pareceu bem ao sair?

- confesso que ao entrar estava calada e tive a impressão de ve-la esconder o rosto, ao sair, parecia normal, porém cansada... Vocês brigaram novamente?

- não sei...

Sem dar maior atenção a senhora que o olhava de forma indagadora se retirou. Nada resolveria naquele dia. Ofendera Elise por conta de um velho solitário e ranzinza sem pensar duas vezes fora ao apartamento do inquilino e esmurrada a porta, sequer esperou a porta abrir por completo e ao ver o rosto enrugado em sua frente desferiu?

- você a quer não é mesmo, maldito? Você fez a queixa falsa sobre o fato de molestar as meninas!

- não é tão burro...

Cerrando os punhos e entredentes berrou?

- por quê?

- para sua proteção! Não posso ter um porteiro iludido por uma...

- Se o senhor esquecer o seu linguajar juro que esquecerei sua idade! E sabe de uma coisa? Eu não quero lhe entender! Me casarei amanhã, se o senhor não quiser se mudar, não chegue perto de Elise!

Deu as costas ao homem que sequer parecia afetado. Trancou-se em sua casa. “Velho louco o tarado, como puder deixar que ele me influenciasse”

Não quis parar para pensar nos motivos do velho Aroldo, medidas justas seriam tomadas em relação as acusações falsas do morador... Agora precisava se concentrar em Elise, Aroldo já se fizera presente demais em suas vidas.

Elise teria uma grande apresentação na noite do dia seguinte e disse que queria ficar só, não entendia de bailarinas, além do fato de serem lindas e ao invés de andar dançavam pela casa... Elas deviam querer concentração, Elise tinha razão, nunca prestara atenção nos interesses dela... Iria resgatar os beijos de Elise...

Na noite seguinte:

O teatro estava apinhado de gente, na entrada um cartaz de Elise, Uma noiva triste...

Assistiu ao ballet sem a menos ter chances de conseguir se visto por Elise, quase perdera a fala quando a viu, fugindo do que seria a tal coreografia, beijar a palma da mão e jogar para plateia. Seu coração dera um pulo, ela o perdoara!

Saiu de seu lugar, e aos poucos as pessoas faziam o mesmo, com muito custo e perguntas foi barrado por um dos seguranças que ignorou seus apelos de noivo.

Gabriel se postou na porta do teatro, ele sairia a qualquer momento entre saltos em beijos...

No Camarim, Elise olhava a imagem no espelho evitando deixar as lágrimas caírem... – Ele jamais iria vir, mais podia sentir o amor dele...

Uma leve batida na porta e uma voz feminina do lado de fora dissera algo sobre a estarem esperando.

Com o coração aos saltos as lágrimas foram substituídas por um leve sorriso: “ Que bobagem! Iria encontra-lo! - Sem esperar um lampejo de reconsiderar agarrara o longo tu-tu e pôs-se a correr descalças corredores, e corredores, não soube quanto tempo correu para sair do teatro, mas ao dar conta de si estava de frente a portaria do prédio, ofegante e descalça, as meias agora rasgadas a levaram radiante portaria adentro.

- Entrou e perguntou ao porteiro, Carlitos:

-Viu Gabriel?

Não podendo deixar de ignorar a aparência do belo traje respondeu meio a gaguejar:

- no Ballet.

- ok

- Senhora...

-eu sei!

- correu ao quarto andar, para sua surpresa, a porta estava fechada!

-Elise...

Virou-se e congelou ao ver o velho Aroldo, parado a sua frente, com a mão enrolada em um pano encharcado de sangue:

- O que..? – perguntara assustada sem tirar os olhos da mão enrolada.

- Tive um acidente com o encanamento da cozinha...

- mas porque não procurou um dos rapazes?

- apenas Gabriel entende de canos – acrescentou com um sorriso calmo e mostrando um semblante ligeiramente confuso acrescentou – tivemos uma briga feia por sua causa – ao perceber que por um segundo a jovem tirou os olhos de sua mão e o encarou de sobrancelhas erguidas, acrescentou – Queria me desculpar com você primeiro, depois levarei minhas desculpas a ele, não quis chama-lo, as pessoas pensam que não, mas me sinto constrangido as vezes...

Notando que Elise voltara os olhos para sua mão:

- Elise, sei que deve saber alguma coisa a respeito de primeiros socorros, poderia me ajudar com um curativo?

-claro! – sem pensar seguira Aroldo ao seu apartamento, ao entrar, levara tempo para se acostumar com a semi-escuridão...

-Gosto da luz de velas, francamente a eletricidade é algo....

Elise parara de ouvir, Aroldo se afastara em busca da caixa de primeiros socorros segundo dissera, e ela ficara muda com o cenário: Haviam bailarinas pintadas por toda a sala, iluminadas por velas e castiçais, foi de quadro em quadro todas eram a mesma, a semelhança com ela era grande... Chegara perto de uma que tinha o seu tamanho e tamanha fora a surpresa ao constatar ser ela própria!

- Uma obra prima, não acha?

No teatro, o segurança ia saindo quando encontrou Gabriel:

- Deu meu recado? Que a esperaria aqui?

- Você viu algum bailarino saindo pela frente, amigo?

Enquanto isso:

- onde está Gabriel? – perguntou ao notar a tinta vermelha cor de sangue recém-usada sobre a mesa.

- te esperando...

- disseram que estavam me esperando aqui, então deduzi que ele havia...

- eu liguei.

- Gabriel pediu? Porque não o fez?

- não está aqui. Sabe minha querida, um dia amei uma bailarina, parecia com você, nos casamos e eu odiava todo aquele exibicionismo, fotos e poses, o tempo não passava para ela, me fechei, ela foi embora.

- pensei ter dito ser viúvo...

E sou! Assim que os encontrei, me tornei um viúvo – soltara um riso frio e antes que Elise pensasse em se mexer este a agarrara pelo coque, enquanto arrastava a bailarina surpresa e apavorada com tamanha força daquele homem que dizia-se um idoso e o era!

Ia narrando:

-não me diga que nunca ouviu a história do porteiro que matou a mulher?

Todos haviam ouvido falar da estória, mas sempre achara que fosse conversa de bailarinas alienadas que gostavam de alimentar a lenda de ter uma bailarina fantasma na academia.

Pois sou eu! – gritou – Aquela maldita! Eu era um mero porteiro, ela me seduziu, disse que me amava me casei com ela...

Soltando o coque, agora quase desfeito de Elise, desabafou quase em um choro:

- eu não suportei! Todos queriam vê-la, era odioso! Afastei-me dela e de seu mundo de brilho! Ela?! – riu e buscando mágoas e força nas palavras para pode soltar o ódio, gritara:

- me abandonou! Eu a matei! Fugi, vivi como um cão mudei meu nome e documentos, voltei, mas confesso que sentia falta daquela dança... Com o tempo passei a pintá-la, não adiantou, nada traria a bailarina que eu conheci na portaria. Passei a evitar todas as bailarinas, para minha irritação essa maldita  sempre escola me atormentara... Até o dia... – olhou com um jeito terno que fez com que Elise se encolhesse por dentro. -... Em que me impacientei com a espera do elevador e desci pelas escadas, a vi... Pensei que de alguma forma meu amor voltara, novamente pura... Mas ao vê-la não me olhar e...  com Gabriel...

- Eu me casaria com você, querida! –Com uma voz suave e ameaçadora acrescentou – E terminaria com seu brilho antes que meu ciúme me matasse! – E a pintaria até encontra-la como a vejo em cada apresentação sua, fui a todas!... Riu de forma insana e de leve alisou o rosto de Elise, esta mal conseguia se mexer -... – Eu já a pintei, querida!

Havia algo nos olhos de Elise... Aroldo olhou-os fundo, mas não conseguira entender...

Gabriel chegara a portaria como um pé de vento...

- onde está Elise...

Sem tempo para falar  e com as mãos de seu  companheiro de trabalho em seu colarinho, apontou as escadas...

De galgada Gabriel chegara a escola do quarto andar seu desespero de vê-la fechada quase o fizera ir até sua casa atrás de Elise, mas o companheiro apontou para os andares de cima... “Aroldo”... Não sabia ao certo por que, mas aquele velho deveria saber dela...

Com as mesmas galgadas rápidas chegara a ao apartamento do homem, e nesses pequenos segundos o que vira, roubara tudo o que Gabriel havia processado na mente desde que encarnara...



Bailarinas alienadas da escola do quarto andar do prédio contam que no dia seguinte um rapaz foi encontrado morto na rua, abraçado a uma bailarina também sem vida trajando um longo e feio vestido branco e prata, com grandes estampas em vermelho... No entanto, afirmam que não eram feitas de tinta vermelha.

             

Mas não param por aí, dizem que todas as noites uma bailarina aparece na portaria perguntando ao porteiro se o dono de seus beijos o recebera e pede para dizer ao velho assassino que o entende e perdoa. Ao sumir um rapaz surgia pedindo para dizer a sua amada bailarina que os recebeu... 


Ninguém consegue ficar na portaria para dar os recados... As bailarinas alienadas afirmam que todos os porteiros fogem ao receber a visita do terceiro fantasma... Dizem ser de um velho, que de tão ciumento matou a mulher bailarina e outra parecida com ela, ali mesmo no prédio, em sua própria casa, deixando o noivo da pobre garota enlouquecido nas poucas horas em que a tristeza e insanidade o deixaram viver agarrado à amada já antecedida horas antes...

Dizem as bailarinas alienadas que o velho e terceiro fantasma aparece segundos após o casal, berrando como se tivesse pulmões de ser vivente: Ela me perdoou???!!!

Até hoje nenhum porteiro conseguiu  ficar no local para responder e amenizar sua culpa...

J.Mendes.


 A riqueza, a beleza e o pedido


Gustavo chegara um pouco mais cedo naquela manhã, era uma daquelas de frio intenso, teria mais tempo para seus alongamentos. 

Não demorara e já estava suando de frente aos grandes espelhos de uma das salas de aula do teatro. A cada movimento sentia-se mais perto de seus grandes objetivos. Gustavo sequer tinha uma família, pai e mãe morreram quando ainda era um menino, fora criado até pouca mais que sua maior idade pela avó, uma velha bailarina. Esta não conseguira ir muito longe em sua carreira, mais era uma mulher feliz. Parara cedo a dança;
casara-se e apenas sua mãe concebera; o marido,
pouco depois se perdera em batalhas. Mas criara a única filha, esta nunca tivera aptidão para dança e a velha Augusta não era o tipo de mulher que costumava impor sua opinião a dos outros, sequer da filha. Com o neto não fora diferente, ele optara pela dança. A dor de perder a filha fora compensada pela alegre presença do garoto, e fora sua surpresa quando este mostrou grande interesse pelas suas histórias de dança. Ao notar o gosto no neto, a avó o colocara cedo na escola de ballet e em tudo o apoiou, eram pobres. Atualmente a avó havia partido a cerca de cinco anos, uma noite, colocou várias e várias vezes sua pequena caixinha de música para tocar, mas pela manhã, não fora com os óculos pendurados adormecida com um livro no colo que o neto a encontrara. Tinha os olhos fechados e uma expressão serena no rosto, uma das mãos caídas da poltrona e outra agarrada a um velho álbum de fotos em sua época de bailarina, na parte interior da capa havia escrito: “Posso não ter sido a melhor de todas, mas fui a melhor de mim, isso me basta”. 
As coisas ficaram muito difíceis para o jovem bailarino, tivera que trabalhar as noites para manter o dia livre para a dança. Servia em um pequeno bar da região. Conseguindo conciliar o horário, quase não restava tempo para a dor da perda que o jogaria ao chão se ele sequer parasse para pensar. 

Trabalhara com afinco e despejava na dança, sua dor, usava sua tristeza, alegria ou raiva, mas tamanha demonstração de sentimentos logo fora notada. Seu corpo cada vez mais forte e flexível deslizava a cada nota, com expressões que completavam cada movimento. A precisão virou mero hábito, no entanto os sentimentos a tudo adornavam. 

Se Gustavo era um bailarino sensível, o mesmo não se dava como homem, era distante, não respondia a nada que não valesse a pena, sequer as bailarinas menos tímidas conseguiam lhe tirar um sorriso. 

Não era o dono de um rosto bonito. Mas seu porte e seriedade atraiam as mulheres. Gustavo não pensava em relacionamentos. 

A grande apresentação seria dentro de poucas semanas, e ele era o escolhido, um brinquedo. Ainda não sabia quem seria seu par de deux, mas isso não vinha ao caso, não importava, era um teatro cercado de talentosas bailarinas, iria ser um lindo espetáculo. 

A porta sequer batera, em seus pensamentos e concentração ao qual estava sequer notara a figura que sentada ao canto remexia na bolsa, ao levantar os olhos Gustavo a reconhecera. Marjorie, a garota rica. Por segundos ela sustentou seu olhar com os belos olhos azuis, porem os desviara ao achar a liga e começar a prender os longos cabelos castanhos. 

Logo a se ver com os cabelos presos, levantou-se e começou alongar ignorando a presença do de Gustavo. Este fez o mesmo, Marjorie era linda, Gustavo tinha certeza que era o único motivo pela qual a olhara ora ou outra. Sentia certa hostilidade pela sua pessoa. Era bela rica e afastada de todos, sequer olhava os outros a sua volta, com certeza estava ali por diversos contatos de sua família influente... Era inevitável para ele não pensar. 

Sem conter uma pontada de irritação lançou a Marjorie: 

-bom dia! 

Sequer um movimento de cabeça, sequer um desleixo em seus movimentos. 

“Esnobe!” – pensou. 

Seu professor viajara mais avisara que outro iria substitui-lo, ao questionar o a razão pelo qual o professor se ausentaria em ocasião tão importante, ele retrucara enquanto remexia entre os bolsos, tinha certa cisma em que sempre estava a esquecer-se de algo: 

- vou cuidar do futuro do par de deux da apresentação... 

- como assim? 

- preciso fazer uns contatos, assuntos do espetáculo... Meu amigo, virá ... – antes que pudesse ser interrompido pelo estimado aluno explicou – ele é espetacular! Além do mais, vocês já sabem o que fazer, apenas algumas variações que passei para ele... O idioma será um problema, exceto eu, não há outra pessoa que o domine, nesse caso, mantenha os passos e não será difícil, ele usa o francês, mas está limitado aos movimentos da aula. Não será difícil, você não fala em aula! E quem precisa de conversa? – ironizou por diversas vezes ouvir o aluno repetir essa pergunta de forma retórica. - Apenas treine, saiba que sempre há mais a aprender. 

-Sim senhor, ao menos sabe quem será a bailarina...? 

- não Gustavo! Mas que diferença faz? Você prefere o espelho ao conversar com alguém! 

Ao notar o baixar de olhos do aluno, arrependeu-se, mas firmou: 

- eu lhe entendo, meu jovem... No entanto, você precisa deixar de olhar tudo com olhos tão frios... 

- isso me impede de sofrer... 

-não! Impede-te de viver! E te torna uma pessoa que não consegue ver a beleza e realidade da vida, nem se esta estiver pulando em sua frente! – soltando um suspiro, acrescentou - ver as pessoas com olhos frios podem fazer de você uma pessoa injusta! 

Fora interrompido de seus pensamentos pela entrada de um idoso bailarino. 

Os dias que se seguiram foram os mais irritantes e intrigantes que Gustavo já vivenciara naquele teatro. 

Sua par era a bela Marjorie, ou seja, com ele, um fechado, o professor, fechado e sem falarem o mesmo idioma! Ela parecia não fazer parte daquilo quando a dança acabava. Se ambos não soubessem o que fazer e as variações não fossem logo compreendidas, seria um fracasso! 

Ela nunca tinha dúvidas, pois sequer tentava perguntar ou opinar algo nos ensaios. Depois de mais três dias de “bom dia” negados, Gustavo poderia dizer que a estaria odiando se a mesma não fosse tão precisa em seus movimentos, dançava praticamente como se carregasse a melodia na cabeça, nunca era corrigida, fechava os olhos quando seus rostos se aproximavam e ao terminar o ensaio, recolhia seus pertences e saia, a sua espera havia, sempre, um motorista. No entanto, o que no começo parecia ser motivo para mexer com seu orgulho masculino e social, virou algo inusitado em sua cabeça; Marjorie não era assim apenas com ele, mas com todos, não era apenas uma forma metafórica da situação, ela era imune as outras bailarinas, sua beleza e silêncio as incomodava. Gustavo a vira apenas algumas vezes antes dos ensaios, não faziam aulas juntos, achou que a bela jovem carregava uma dúzia de meninas como ela em seu encalço, sendo a mais bela e mais rica, era tudo o que ele sabia dela, antes e agora nada mudara, porem ficara abismado não somente com o fato de Marjorie não ter um grupo de amigas, como também notou que era antipatizada alvo de pequenas piadinhas, mas o mais incrível era o fato da moça simplesmente ignorar, era algo mecânico: chegava, ensaiava com precisão e seguia até seu motorista. 

Gustavo não podia acreditar que um ser humano pudesse chegar aquele nível de superioridade, achava-se perfeita! E praticamente o era! Era linda, tinha dinheiro, e dançava como uma ninfa! 

Em certas noites ia até a pequena varanda da casa humilde em que passara os dias mais felizes de sua vida e com a flauta doce que pertencera a sua avó, uma segunda paixão de ambos além do ballet, e uma coisa que ela dizia sempre: 

-Deus nos concede o dom e devemos aproveita-los, geralmente fazemos com amor o que Deus nos deu como maior habilidade... 

Ainda lembrando as palavras da religiosa avó, Gustavo se pôs a tocar a flauta, como gostava de fazer isso! E passou a fazê-lo todas as noites, era uma forma de suportar os poucos dias desagradáveis que restavam, chegava mais tarde, pois não estava conseguindo ignorar a frieza de Marjorie. “Criatura soberba!” 

Mas suas noites na solidão de sua flauta doce e a varandinha era a doce bailarina que entrava em cena em sua mente, como podia? Até o fechar de olhos ficara algo que ele mesmo via ao fechar os seus. Chegara a pensar que era estrangeira, mas logo se convencera que não queria arranjar desculpas para o maior defeito que aquela criatura poderia ter em sua opinião, era soberba! 

Soberba ou não, era ela que bailava nos pensamentos de Gustavo quando este tocava na varanda todas as noites, e de certa forma, também bailava sua mente em incógnitas, mulher estranha. 

Chegara à conclusão que era óbvio, desde o início, ele era feio e pobre, ao contrário dela, dançar com ele deveria estar sendo algo quase intolerável para a mesma. Certo ano, ainda menino, ganhara uma bolsa para uma escola para crianças de famílias ricas; Gustavo era humilhado pela falta de beleza e humildade dos trajes, as garotas zombavam... A avó percebendo que aquilo era algo que estava afetando o neto de forma intensa voltara o menino à velha escola. Gustavo sabia como elas poderiam ser frias... Mas não abria mão de imaginar Marjorie dançando nas noites da varanda, mesmo que quisesse não conseguiria. No entanto, começara de certa forma, a gostar do jeito estranho com que Marjorie se comportava, com isso conseguiu agir com encenada frieza, no entanto, dias antes, percebera que seus olhos o seguiam como antes não aconteciam. 

Na noite anterior recebera um comunicado de seu professor dizendo ele mudaria de cidade, era sua grande carreira pela frente! Sentiu raiva ao notar que a ideia de não mais ver Marjorie o incomodavam. 

Praticamente amassando a correspondência pensara em como era tolo! A vida inteira se protegera para não mais sofrer por perdas... E em que momento se permitiu apaixonar-se por uma criatura que praticamente parecia abominá-lo?! 

Tentando não permitir que isso crescesse mais e começasse a doer mais do que já se encontrava dolorido, Gustavo tentava focar toda sua atenção na apresentação e em arrumar as malas. Era nostálgico deixar a casa em que vivera feliz com a avó, no entanto, tomou a decisão que não a alugaria, seria sempre seu refúgio do mundo exterior. 

A grande noite chegara, na realidade uma variação de um ballet onde uma menina quer um determinado brinquedo. 

Gustavo e Marjorie dançaram como anjos, ele mal tivera tempo de questionar a diferença entre a bailarina fria e precisa dos ensaios e aquela que parecia tocá-lo e olha-lo com sentimento, no resumo fez o que fazia nos palcos, expressou seus sentimentos, com isso dançou desejando que aquilo fosse real. Ao final, em banhos de rosas e explosões de aplausos, Marjorie pela primeira vez o olhou e sorriu, sem pensar duas vezes retribuiu o sorriso, seu coração que já estava saltitante, neste momento se encheu de alegria. Ela lhe sorrira! 

Sua alegria o acompanhou até a coxia enquanto a seguia em meios aos outros bailarinos, quando chamou por ela e esta correu em direção ao seu próprio camarim ignorando a ele e ao seu chamado, atônito com a atitude, Gustavo fizera o mesmo e se trancara no seu camarim. Não demorou muito para entender: “Claro”! Ela no palco! Era representação, ela não sente, apenas representa a dança... Um falso sorriso, quantas vezes ele mesmo não dançou com pessoas que não lhes eram simpática e fizera o mesmo?! 

Agora, além da bela apresentação, irá falar para seus amigos, sejam lá quais forem que o bailarino da noite, afinal de contas, ele era uma grande atração e ela sabia disso! É um grande imbecil apaixonado por ela! Quantos haveria na situação dele? 

Uma batida na porta o tirara do sério, com um gesto brusco a abriu: 

Ficara mudo ao dar de cara com Marjorie. Lá estava ela, trajando o lindo vestido do figurino. 

Gustavo não sabia ao certo o que dizer, esta rapidamente lhe passou um bilhete, dando-lhe as costas, confuso, porém ainda irritado leu: 

“pedi de natal um presente: seu pedido de casamento”. 

Ele se virou, ela sorria e cruzava as mãos em um gesto tímido, o que antes era irritação virou raiva! 

Além de tudo queria a palhaçada por escrito?! Ela teria... 

Pegou um bilhete e começou a escrever, sentiu-se um idiota, mas levaria aquilo no mesmo grau de ironia em que ela! 

Pegou o bilhete e sem olhar para a figura que se fazia de pé em sua porta jogou o bilhete no chão fechando-a em seguida com violência no rosto de Marjorie. 

Este dizia: 

“Meninas ricas não precisam pedir presentes, elas já possuem o que podem comprar”. 

Adeus. 

Os dois dias que seguiram foram angustiante, Gustavo tentava desvia sua cabeça do acontecido e se privara de vez da flauta doce, pelo menos até que conseguisse esquecer a figura de Marjorie dançando, se é que isso aconteceria algum dia. 

Tanto se fechara para as pessoas e agora se via com um sofrimento e sentia-se um tolo. Sabia os tipos de brincadeiras de mau gosto de essas garotas ricas faziam, pois fora vítima disso na escola, a velha estória do bilhetinho e uma grande vergonha depois. 

Uma menina, na época em frequentou a requintada escola, colocara um bilhete em seu armário falando de seus sentimentos e marcando um encontro. 

Gustavo fora cheio de boas intenções, melhor roupa e uma patética flor na mão. A menina de fato aparecera, no entanto, alguns minutos mais tarde, logo depois que seus amigos e amigas chegaram e o humilharam com palavras duras, este com seu orgulho, tentara retrucar, mas terminara machucado devido a surra que levara dos meninos e com um flor despetalada no chão. Nunca comentara o fato a sua avó, sentira vergonha, logo depois ela o tirou daquela escola e Gustavo jurou que nunca mais daria flores a uma garota. E passou a odiar sentir-se feito de tolo pelos outros, sobretudo as mulheres. 

A noite chegava e tudo estava pronto, malas, ultima olhada na casa onde passara grande parte de sua infância e sua vida até então. Portas estavam lhe abrindo, chegara onde muitos bailarinos lutavam arduamente para chegar, e também não poupara esforços. 

Um tanto quanto relutante em fechar a aquele a porta, em um determinado segundo fechou-a de supetão, caso contrário, teve a impressão de que não o faria de outra forma, seu horário já não era tão extenso... 

Com passos decididos caminhou até o carro e entrou, não sem antes olhar novamente o antigo lar, sentiu a falta que a avó fazia doer-lhe o peito, quase podia vê-la na porta acenando para ele... Com um rápido movimento de cabeça pode jurar ter visto o vulta da senhora pelo canto dos olhos como imaginara, mas antes que pudesse se virar, já havia aberto a porta do veículo e um envelope preso em seu espelho retrovisor lhe chamou a atenção. Pegou e entrou no carro, agora com rapidez, seu horário justo não permitira que a curiosidade tomasse conta dele e de seu tempo. 

Mas ao fechar-se no carro repensou, olhou em volta, nada mais havia na noite fria e pouco iluminada. A única resposta que teria estava em suas mãos: 

Era uma carta, com uma caligrafia que ele imediatamente reconhecera: 

“Devo-lhe muitas explicações, pois apenas os professores sabem da verdade”..., inclusive seu professor e nosso coreógrafo substituto, Sr. Franz. 

“Sei que deveria ter dito a você, mas tinha medo de ser rejeitada como aconteceu...” 

Gustavo piscou e relendo seu coração voltava a queimar no peito, aturdido retomou a leitura: 

“Venho de uma família muito rica, isto é verdade, não tenho culpa disso, creio, e aos que todos pensam ser uma dádiva em beleza para muitos, em meu caso, sempre fora um tormento”. Meu pai era um belo homem, com muitas posses, com isso nasci com a mesma provação: Beleza e riqueza. 

Minha mãe, embora amada e respeitada pelo meu pai, é uma mulher isenta de beleza física, e até onde pude ir notando a medida que eu ia crescendo várias sugestões eram dadas ao meu pai por ela, isto claro, logo após ela dar a luz ao meu irmão, eu o amo e este não vive conosco, desde que nosso pai desencarnara, estuda e mora em outro país. Os conselhos eram sempre que nos mandassem para fora, éramos belas crianças e isso atraia periculosidade a nós, costuma dizer ao meu pai... 

São nossos filhos, temos que os proteges! Há muita gente má intencionada... E a beleza deles chama atenção, imagina a fortuna que não nos cobraria de resgate em troca de um deles?! E de quantos e quantas oportunistas pretendentes a casamento deles nos teremos que aguentar? As pessoas nunca o olharam pelo que o são, o dinheiro e beleza os anularão para sempre! 

Na verdade, um dia consegui entender, que por não ser bela, nossa própria mãe nos desprezava, deste dia em diante passei a odiar minha aparência, se esta me impedia de ter o amor materno, quem me amaria? 

Passei anos ruminando aquelas palavras, quando nosso pai morreu, minha mãe despachou meu irmão para o exterior, mas o ballet se tornou minha vida. 

Na realidade, não ouve uma audição, vim de onde para agora você parte a fim de lhe fazer um bom par. Foi um honra poder dançar com você. 

Tive minhas condições, ao aceitar o papel, em acordo com os professores, para melhor desempenha-lo, devido a minha aparência e situação financeira, as pessoas, como minha mãe afirmara, não enxergam o meu valor e nunca viram meus esforços, pois minha mãe nunca apoiou...” 

Gustavo de uma pausa na leitura: Então ela viera em convite para uma participação especial, então era uma bailarina, mas ninguém mencionava nada sobre ela, agora descobria que ela vinha e estava voltando para o mesmo lugar que iria! Retomando a carta com certa ansiedade em achar o ponto que parara continuou: 

“... Devo-lhe muitas desculpas, peço que me perdoe, tive medo de que você me olhasse menos do que o fazia, foi uma tolice manter isso até o fim, mas pude notar que minha beleza e meu dinheiro não lhe interessavam, notava, por mais frio que aparentasse que havia algo em você por mim... 

Tomei então a decisão de mostrar o que já vinha sentindo desde cheguei, quando você me retribuiu o sorriso no palco, pensei em ir ao seu camarim e me expressar de alguma forma. Foi tolice, a dança é o único momento em que me sinto livre. 

Qualquer garota com orgulho não estaria lhe escrevendo, mas antes que negue mais uma vez meu pedido gostaria que soubesse que não sou a pessoa que pensa. O acidente que matou meu pai também me tirou completamente a audição, com isso, por um tempo eu falava, mas minha mãe dizia que eu gritava e eu parecia uma louca. Desde então parei de falar... 

Mas fiz uma promessa a mim mesma, só falaria de novo quando a felicidade me perguntasse algo... 

Mantive em segredo, pois ser o foco de atenções, fora de um palco, me causa certo mal estar. 

Você me disse que garotas ricas não merecem presentes, não sou mais uma garota e sim uma mulher, mas o fato de ser rica pode mudar... Mas isso depende de você, minha mãe me disse que se eu me casasse com um bailarino pobre eu poderia me considerar, bonita, surda e pobre. 

“Estou do lado de fora de seu carro, congelando, pois com certeza você irá achar tudo isso surreal...” 

Gustavo ergueu a cabeça e nada viu, voltou à leitura ainda relutante em parar de procura-la: 

“Todas as noites, eu o via tocar na varanda, embora não pudesse ouvi-lo, alguma coisa aqui dentro me dizia que era por mim que tocava, talvez esteja sendo tola ou pretenciosa, mas era o que sentia.” 

Se depois disso ainda puder considerar: 

Agora, aceita me pedir em casamento? “Isso fará de mim uma mulher pobre, no entanto, a mais feliz...”. 

A árvore, próximo à varanda, e mais escondida, era de lá que lhe via tocar, aqui estou. 

Bailarinas alienadas contam que naquela noite de natal, um bailarino saiu do carro aos saltos e em uma grande reverência, ajoelhou-se e sem dizer uma única palavra ajoelhou e com um gesto, fez dois pedidos, perdão e casamento. 

As bailarinas dizem que a bailarina era surda, mas disse um sim... Bem, disseram parecia mais um berro do que um consentimento, mas o apaixonado bailarino entendeu. 

O final? Não há final! Bailarinas alienadas dizem que já ouviram falar que os dois formaram um dos o par de deux mais lindo que já viram, no palco e na vida. 

Hoje? As bailarinas alienadas afirmam que já velhinhos, ele se dedicou e tornou-se um flautista, a bailarina deixou de ser surda aos pouquinhos, e conseguira realizar o sonho de ouvir o marido tocar. 

J.Mendes 


2 comentários:

  1. surpreendente estoria,me contagiou do inicio ao fim
    parabéns adorei...

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  2. Muito obrigada, escrever é um prazer, mas agradar as pessoas com o que escrevemos e muuuuito gratificante. Obrigada!

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