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terça-feira, 8 de setembro de 2015

O ELEVADOR

Naquela manhã ela fez questão de fazer tudo exatamente como deveria ser , na verdade queria evitar se possível até mesmo o porteiro, mas não seria possível

Apertou o botão do elevador freneticamente, seu medo se concretizou a poucos metros dela.  A porta da solteirinha dos gatos se abriu e ela saiu, fechou a porta com um certa  rapidez já anunciando:
- Ai... Seguro o "elevi" pra mim!
- Quando ele chegar se for preciso... É claro que vou segurar.

Percebeu que a vizinha a olhou espantada, mas nada disse, para sua decepção. Adoraria dizer à ela como a sua "vozinha" de criança imitada era irritante. E que porra era aquela  de "elevi", era elevador, cacete, elevador!

Sem se incomodar mais com o silêncio, viu, como acontecia diariamente, o elevador parar no décimo segundo andar. Sem sequer esperar o mesmo abrir ambas as portas, uma senhora beirando seus setenta anos e toda aprumada em seu terninho marrom assim como a tintura de seus cabelos entrou...
-Francamente! Todas as manhãs é a mesma coisa!
Começou a aperta freneticamente o botão do décimo andar como fazia todas as manhãs para passar no andar da filha e do  genro e deu continuidade aos seus resmungos - Tenho de ficar plantada aqui, em pé, na minha idade esperando este elevador que não chega porque vocês o prendem lá no décimo quinto!

- A senhora é advogada, certo? Mas não é boa em cálculos básicos, como pode?
indignada, a senhora que já havia chegado ao décimo, segurou a porta e empinou o nariz mas não teve tempo de falar os que pretendia.

- Antes de passar pelo décimo quinto esta porcaria de "elevi" passa pelo décimo, neste caso, bem que a senhora podia poupar seu genro de sua presença - A senhora abriu a boca mas não teve chance de mencionar uma palavra sequer - Depois passa no seu que fica, ainda é pouco, três andares abaixo de nós, por que a senhora espera que peguemos o elevador na sua frente só para jogar seus resmungos e mau humor em nós?

- Olhe aqui, eu...
- Já sei, já sei, é advogada é irá me ameaçar de processo por eu falar desrespeitosamente para com uma velhinha doce e gentil, quanta justiça! Por falar em justiça, dá para liberar o elevador, o cara que bebe por todos deve ter quebrado o botão do sétimo, sem contar o do nono que está calculando o possível defeito que o elevador deve ter tido para apresentar na pauta do condomínio.

- Sua...
Mas a porta se fechou na cara da "doce" velhinha, que apesar dos quase ou mais de setenta, administrava o próprio escritório de advogacia com mais cinco funcionários, administrava também o casamento das filhas e quando não tinha mais o que fazer costumava processar os outros por banalidades.

Mal a porta se fechou e a vizinha arqueou as sobrancelhas para seu lado.
-Cara, você ficou louca? Essa mulher processa todo mundo!
- E você, "Elevi", bem que podia parar com essa mania de me esperar para segurar o elevador para você, amanhã, vou deixar a porta fechar na tua cara!
- Cara, na boa...
-Ah, ô!
Foram interrompidas por um homem franzino, com nariz curvado e óculos com aros de tartaruga.
- Qual foi o defeito do elevador, meninas?
- Papo furado na porta do mesmo. - Adiantou-se
- Como... Como... Assim?
- Como assim que haverá uma reclamação a menos para o senhor apresentar na reunião de condomínio. Agora poderia entrar... A galera do sétimo andar vai ter que usar as escadas.
- Que absurdo...
- Também acho.
- Pois eu é quem vou sair no sétimo e descer de escadas, o ar aqui está pesado demais - alegou a vizinha cruzando os braços com certo desdém.
- Ar pesado você vai sentir é nesse andar mesmo!
- Olha aqui... Só não vou descer no oitavo para não "Parar" o elevador.
- Adorei o bom senso. - Mantendo sempre um tom glacial
Nessa hora o elevador abriu as portas no sétimo e antes que sujeito bem grandalhão que exalava álcool  entrasse sem dar bom dia, a vizinha saiu resmungando baixo rumo as escadas.

Até que ela gostava dele, ao menos era autêntico, não queria dar bom dia não dava, fora o fato de enlouquecer a mulher do sexto com suas festas contínua, e falando dela... Sexto andar...

Ela tomou a frente da porta e disse:
-Quer saber? O fato da senhora ser dona de todo o sexto andar não lhe dá direito nos fazer 
andar no elevador com esse arco-íris de cães que a senhora carrega. Passe bem. - E fechou a porta  antes que a mulher tivesse tempo de dizer algo.

Os homens deram de ombros. 

Parou na portaria, e vendo que o porteiro não estava, sentou-se. As pessoas passavam e abriam elas mesmas a porta pelo porteiro eletrônico para sair, o que era cerca de trinta metros até o portão para que pudessem travá-lo ao bater.

Ela continuou sentada, viu a vizinha, a senhora advogada, ( até mesmo ela e a mulher do sexto evitavam se desgastar com o antigo e grosseiro porteiro) falando em mulher do sexto, a mesma passou pela portaria , a mulher empinou o nariz resmungo algo sobre condomínio.
Algumas pessoas passavam por ela e cochichavam, outras davam leve aceno de cabeça, outras sequer conhecia e nenhum gesto trocavam.

Quando porteiro chegou, meia hora depois, ignorando suas grosserias e mantendo um tom glacial jogou-lhe na cara que certa vez tivera sua bicicleta roubada porque o mesmo não lhe abrira o portão alegando estar mantendo a segurança do prédio, explicou que entendia, mesmo com certa mágoa a atitude dele, mas o que ela não entendia era como ele não conseguia achar o mesmo, em relação ao tempo que o portão ficava aberto para que as pessoas pudessem sair na ausência dele.
Embora sabendo que estava errado e prometendo não fazer mais fechou a cara para ela.

No fim do dia...

Deitada em um confortável divã dizia com uma voz calma.
- Sabe doutor, estou feliz e por outro lado não. 
-E como me descreve isso? 
-Não me aborrecerei mais com redes sociais, pois há dezenas de pessoas 
chatas a menos, não terei como não comparecer a reunião de condomínio desta vez, pois com certeza serei assunto principal, consegui fazer uma senhora desocupada a perder tempo processando uma pobretona como eu, fiz uma ricaça com meia dúzias de cães usar o elevado de serviço... Garanti a segurança do prédio pela manhã, juntamente com antipatia do porteiro.
-E como se sente?
-Mas leve...
-E por que a tristeza?
-Agi naturalmente.... Hoje decidi ser eu mesma! Falar o que penso, ser verdadeira,  e deixar de engolir tanto sapo! E meu chefe me demitiu com isso não posso mais pagar sua consultas.
-Mas como isso aconteceu?!
-Bem começou no elevador hoje cedo...

J.Mendes

2 comentários:

  1. Adorei! Estive o tempo todo dentro do elevador (ou 'elevi', preferir) e fiquei esperando o porteiro.Só não fui na terapia, porque não era de Grupo.
    Parabéns e um grande abraço, J. Mendes!

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